POR OUTRO LADO...

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

VAI QUE O CAVALO FALA...

Consta que aconteceu na Inglaterra, séculos atrás. Condenado pelo crime de comer as batatas do rei, o camponês esperava a hora de ser executado, maquinando sem parar um jeito de escapar da forca. Até que a luz se fez.

Certa noite, chamou o carcereiro e disse: "Sua Majestade é apaixonado por um dos seus cavalos, todos sabem disso. Peço que faça chegar ao conhecimento do Rei que sei como fazer aquele animal falar!".

Chegou e ele foi levado à presença Real. "Quer dizer que o senhor é capaz de fazer meu cavalo falar?!" -Perguntou o Rei, com indisfarçável ironia e mal disfarçada esperança.

-Sim, Majestade. Não preciso de mais que 3 anos para que seu lindo animal possa dialogar com Vossa Realeza.

-Perfeitamente, camponês. Lhe concederei o direito de provar isso. Sua pena está suspensa para que você faça o que diz poder fazer. Se em 3 anos meu cavalo falar, serás um homem livre; se não, cuidarei pessoalmente para que tenhas a mais horrível morte que um homem pode imaginar.

O camponês foi conduzido de volta à cela para pegar suas coisas e seguir para a estrebaria Real. Antes de sair, um dos presos o interpelou.

-Você está louco?! Pra onde você acha que vai com essa história estúpida?

-Não sei. Por enquanto ganhei mais 3 anos de vida, fora desse lugar horroroso aqui. E vai que no final desse tempo a porra do cavalo fala, né?

Lembro dessa história sempre que as eleições se aproximam e com elas o desencanto espreita minha visão sobre a política e seus homens. Assim tem sido nos últimos anos.

Tá, a eleição de Lula amenizou esse desalento todo. O metalúrgico iletrado, a maior personagem da cena política brasileira em todos os tempos, redefiniu o eixo do poder no Brasil, introduzindo o viés da atenção ao serviço público como ferramenta de inclusão e desenvolvimento sustentável. Saimos, com Lula, da selvageria pré-histórica do poder, que simplesmente dava as costas para as humilhantes condições de vida da nação brasileira.

O que não significa que as mazelas da gestão pública brasileira foram superadas. Não foram e durante muitas décadas ainda darão as cartas por essa latitudes.

A alternância do poder entre os diversos grupos políticos continua seguindo a lógica do emprego público não-concursado como forma de "fidelizar" correligionários; a outra pilastra dessa maldita engenharia política segue fincada na corrupção em grandes planos, em que grandes grupos econômicos investem quantias fabulosas em campanhas para cargos majoritários e realizam esses mesmos investimentos na forma de licitações arranjadas para grandes obras.

Nesse sentido, tanto faz ser o PT, PSDB, PMDB ou qualquer outra agremiação partidária que esteja no comando. De tigre faminto, mulher apaixonada e um caminhão de dinheiro não há quem escape.

Assim foi com Lula e com Wagner. E assim será com Pinheiro, se ele aprender a falar firme e sorrir com naturalidade, habilitando-se a disputar o segundo turno das eleições de Salvador com o risível e ricamente produzido Ted Tampinha, mais conhecido como ACM Neto.

Alguém está pagando a conta desses moços e terá sua recompensa na forma de generosos contratos. É assim que funciona, até o dia em que os parlamentos brasileiros reflitam uma sociedade mais evoluída e passem a exigir novas estruturas de controle do Estado diante de seus atores políticos, poder judiciário incluído.

Não tenho idade para alimentar ilusões e de achar que a eleição de Pinheiro sera o divisor de águas para a redenção soteropolitana. Como não acho que Wagner e mesmo o próprio Lula nos redimam do estágio civilizatório atrasadíssimo desse grande país. Só o inexorável passar dos anos, das décadas, nos farão viver planos mais elevados de relação entre o poder político institucional e seus habitantes. Vai demorar mesmo.

Até lá, comemoraremos o imediato, a lenta construção do futuro. Exaltaremos os feitos do novo prefeito da Cidade da Bahia com a mesma alegria cívica que nos tomaram quando da posse de Lula e de Wagner. Esperanças renovadas e muita, muita paciência para que vejamos os sinais de que esses homens sejam capazes de praticar um comando que estruture um serviço público universal e de melhor qualidade. E que possam contribuir para que as avenidas da corrupção transformem-se em ruas e depois becos. Haja tempo para tudo isso!

Ao final de tudo é apenas isso que importa cada vez que as eleições se aproximam: saber se o novo gestor-mor e seu parlamento são ou não capazes de dar continuidade a essas transformações.

Por isso que defendo o voto em Walter Pinheiro em Salvador e em Marta Suplicy para São Paulo. Se de resto não guardo ilusões quanto à vertiginosidade de suas ações rumo ao paraíso, move-me a convicção de que eles sabem perfeitamente que são depositários de um movimento histórico irreversível, o do salto de qualidade e de inclusão no serviço público brasileiro.

A centro-direita brasileira, seus partidos (DEM, PSDB, PMDB etc) e suas assessorias de comunicação (Veja, Folha, Estadão, Globo etc) ainda não entenderam que apenas o perfilamento a essas necessidades a fará sobreviver na cena política. Suspiram sorrateiramente pelas capitanias hereditárias enquanto discursam modernidade.

É claro que mesmo os candidatos de esquerda prometem muito mais do que efetivamente farão. A lógica da política, submetida às leis que o Congresso Nacional recusa-se a varrer com uma reforma política séria, que vetorize a definitiva modernização do Brasil, permite que assim o façam. Eles não são o Messias renascido, a anunciar o novo tempo. São frutos do hoje, de um tempo em que divisar o futuro exige olhos de águia, tão longe parece estar a realidade de escolas estimulantes, saúde pública de primeira, segurança inteligente etc etc etc.

Torço, bato palmas e teimo em sonhar com um país capaz de gerir competentemente seus recursos naturais e humanos -acima e abaixo daquela puta camada de sal atlântico, portanto. Espero, sinceramente, que esses homens e mulheres da esquerda brasileira curtam à beça as benesses do efêmero poder que têm mas que ao menos mantenham o leme na direção que as urnas exigem eloquentemente: gestões eficazes, serviço decente, práticas politicas e administrativas menos predatórias. É o mínimo que se pode exigir dessas pessoas.

Se assim for, já está de muito bom tamanho, nossos netos e bisnetos viverão dias melhores.

O que não implica em afastarmo-nos da comedida confiança de que eles consigam fazer agora mais que isso, tornando, por exemplo, nossas grandes cidades lugares suportáveis de se conviver. Que nos custa, se afinal de contas sonhar é um dos mais saborosos direitos humanos?

Vai que numa dessa o cavalo fala, né não?

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