POR OUTRO LADO...

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

SOBRE PEDRAS E MEMÓRIAS


Ganha corpo em Salvador mais uma discussão sobre passado e futuro. Dessa vez, o burburinho gira em torno da substituição do calçamento da Barra, feito de pedras portuguesas, por um novo pavimento, com granito.

O Ministério Público da Bahia, atento à discussão, colocou uma enquete em seu site para que seus visitantes opinem sobre o assunto, o que não confere ao resultado valor científico algum, apenas a opinião de quem por lá esteve, sem rigor estatístico.

O resultado demonstra aprovação pela substituição do piso, que é tradicionalmente utilizado por toda a cidade.

Esse assunto evoca uma recorrente discussão sobre a memória urbanística e arquitetônica da cidade. O antenado Licuri repercutiu o debate, vale a pena meter a colher também, vou nessa.

De uma lado do ringue temos a Prefeitura de Salvador, desastrosamente tocada por um político de expressão medíocre chamado João Henrique Carneiro, aliada incondicional de qualquer empreendimento da construção civil, mesmo que passando por cima do espaço público e da memória coletiva.

No outro corner, um bom número de arquitetos, urbanistas, artistas e intelectuais que se opoem a esse e a aparentemente qualquer outro projeto que implique na substituição de elementos da paisagem urbana, seja ele necessário e vantajoso ou não para os seus cidadãos. A tradição, a memória, a preservação parece impor-se sobre qualquer outro viés.

Há algo de estranho nesse debate. Salvador tem quase três milhões de habitantes e gravíssimos desafios a superar, entre eles a requalificação de seus espaços públicos, muitos deles sob forte degradação, como o calçamento de suas ruas.

As históricas e bonitas pedras portuguesas são simplesmente um terror para quem nelas transita. Irregulares e demandadoras de permamente e custosa manutenção, pouco mais se prestam aos seus cidadãos além de evocar reminiscências em seus defensores. Contribuem decisivamente para fazer de Salvador a mais hostil capital brasileira para quem tem limitações físicas, como os cadeirantes, por exemplo.

Torçi meu velho tornozelo semana passada, próximo ao Hospital Português (uia!), por causa desse lindo calçamento, tão bem cuidado pelo poder público municipal como foi a Fonte Nova pelos governos estaduais, inclusive o atual. Poderia ter me estabacado em qualquer outro canto da cidade, tantos são os passeios esburacados e alheios ao conforto e à segurança de seus cidadãos.

Não gosto do padrão "granito+concreto" implantado pela gestão Imbassahy em vários cantos da cidade. Acho-o feioso, além de sua indesejável característica impermeabilizante. Mas colocá-lo como alternativa ao desastre das pedras portuguesas é como oferecer forca ou guilhotina como únicas alternativas para resolver uma amidalite.

Pelos poderes de Odin, por quê raios de razão a óbvia discussão não é colocada, a de como servir à cidadania com um calçamento de boa relação custo-benefício (inclusive de manutenção) e que a proteja em seu caminhar, garantindo também o constitucional direito de seus membros com deficiências físicas de se locomoverem?

Que diabo de memória é essa que se põe acima da segurança de seus cidadãos, particularmente das mulheres, que vivem se esborrachando no chão, do alto de seus saltos?

Aqueles tijolinhos usados no Dique do Tororó e os que, com um desenho ligeiramente diferente, serão aplicados na Avenida Centenário poderiam perfeitamente resolver a parada, garantindo um piso plano, permeável e esteticamente melhor que o granito. Por quê não usá-los?

Senhores, senhoras: Salvador não é uma aldeia hippie. Clama por investimentos públicos e privados de boa qualidade, sofre de elefantíase e de maus tratos. Pede objetividade e capacidade de seus cidadãos e governantes para torná-la mais humana. E seriedade na discussão e proteção de sua memória.

Melhor refletirmos um pouco mais antes de aceitarmos um debate dualista, pobre em suas conceituações prévias -técnicas inclusive- como o que vemos sobre o calçamento da Barra.

Sob pena de continuarmos a achar bonitinho essas duas pragas urbanas da foto acima, trazida do Licuri, as malditas pedras "cross-country" e os pombinhos "toxiplasmose".

6 comentários:

Nilson disse...

Concordo com vossa argumentação. E, solidário, saiba que tb fui vítima de uma torção, só que nos degraus de uma calçada muito alta e politicamente incorreta de Caetité. Não experimentei minhas muletas nas pedras portuguesas, e, diante desse arrazoado, não o farei. E tenho dito!

paulo galo disse...

Solidarizo-me com sua solidariedade de acidentado, amigo Nilsão.
Espero que os defensores das pedras portuguesas não iniciem uma campanha para preservar a memória das pedras "cabeças-de-nego" que estão lá no pelourinho, tornando-as o novo padrão das ruas de Salvador.
Já pensou, brother, pedra portuguesa na calçada e cabeça-de-nego nas ruas?! é pra enriquecer ortopedistas e oficinas mecânicas ou não é?
Cara, vou te falar, tô me especializando cada vez mais em nadar contra a maré dos que nadam contra a maré. Sou visceralmente contra as cotas raciais nas universidades, tô louco pra ver o Edifício Caramuru implodido, desconfio muito das corporações sindicais e acho um saco esse papo de gênero que grassa a academia por todos os lados.
Tô fudido, Nilsão!

Nilson disse...

Tb discordo da política de cotas raciais, acho o Caramuru um mondrongo - aliás, todas as construções mais recentes do Comércio, com algumas exceções - , e em matéria de gênero, raça, religião e credo sindical o que importa mesmo, a meu ver, é se o q se defende faz sentido ou não. Como pra mim muita coisa não faz sentido, fecho com você. Podíamos fundar uma anti-ONG, que tal?

Anônimo disse...

xxx

Franciel disse...

Paulo,
o anônimo que escreveu o xxx aí de cima fui eu. É que faz uns três séculos que tento comentar aqui e não consigo.
Mas, volto a esta tribuna para dizer que torço e espero que, depois de tantas mudanças de posiçoes (OPS!), você não acabe também tendo simpatias pelo Itinga Futebol e Regatas.
Abraços.

P.S Você viu este OPS! que escrevi ali logo após mudanças? Propaganda subliminar. É que o ingresia agora está de endereço novo, no OPS!.
Quando estiver menos assoberbado, passa lá. Soube que o gerente da bodega lá mandou tirar as pedras portuguesas.

Marcus Gusmão disse...

Galinho,

Sem querer passar vaselina e já passando, acho que dá pra conciliar as duas coisas.
Deixa as pedras portuguesas onde elas estão, com uma efetiva manutenção, é claro, as cabeças de nego onde elas estão, e vamos encontrar soluções para o resto da cidade. Salvador, por exemplo, não tem calçadas. Comprei um carrinho quando Luísa nasceu e simplesmente não usei, porque morava na Garibaldi,não tinha carro e só me toquei que é impossível andar com carrinho de bebê pelas ruas de salvador na tentativa do primeiro passeio.
Quanto ao pombo, ele está ali apenas para enfeitar. Também não gosto destas pragas.
E sobre as cotas nas universidades, tenho dúvida.
Só tenho uma certeza: é fundamental derrotar, derrotar não, colocar Forrest John em quinto lugar nestas eleições.
bjs.
Marcus.