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segunda-feira, 18 de agosto de 2008

A SIMPLICIDADE FICOU ÓRFÃ


Somos quase oito bilhões de humanos vivos. Somados aos que já morreram, um número impensável de pessoas andaram nesse minúsculo quadrante do universo, deixando suas marcas, contribuindo para que chegássemos até aqui sendo o que somos, individual e coletivamente.

Somos singulares em meio à multidão. Universos insulares, diluimo-nos diariamente no todo para materializarmo-nos num único ser vivo, parte constitutiva e constituinte das civilizações.

Alguns de nós recebeu dos deuses a incubência de expandir as fronteiras da raça, de fazê-la melhor, de torná-la capaz de propiciar o adequado ambiente para que as sociedades experimentassem vivências infinitamente superiores, libertando gradativamente os indivíduos da escuridão, da miséria intelectual, da grosseria.

Esses homens e mulheres, que aprendemos a chamar de gênios, fascinam por obras reconhecidas como capazes de nos fazer melhores, desvendando explicações antes distantes do nossos sentidos e compreensão.

Não bastasse a diversidade de áreas em que atuam, tantas quantas são as que expressam a curiosidade humana, há ainda uma que intriga a muitos e a mim, emociona.

Falo da capacidade de alguns iluminados de porem freios à complexidade, ao extraordinário mas quase inexplicável.

Eles tornam-se imortais pelo condão de fazer da simplicidade a marca de sua inventividade.

Dorival Caymmi foi um desses poderosos gênios e sua passagem encheu-me o coração de tristeza, não pelo óbvio significado físico de sua morte, lamentável, é claro.

Sua ausência impõe aflição na medida do esgotamento físico de uma alma que entregou-nos maravilhas de singeleza poética e musical e que não mais está entre nós para alertarmo-nos contra a espetacularização, a vaidade desenfreda, a inteligência posta a serviço dela própria e não da libertação humana pela arte.

A morte de Caymmi convida para uma doce reflexão à beira do mar, ainda que mares não se vejam de onde você está, agora. Basta senti-lo que ele estará ao alcance de seus olhos, foi isso que esse grande mestre nos ensinou.

O amor, o mar, as pessoas simples, a simplicidade impregnada de boa vontade diante da vida. Caymmi foi o grande poeta do singelo, arauto imortal das coisas feitas e contempladas sem frescuras, sem floreios apresentados como geniais, enamorados por si mesmos.

Não foi a única forma de redimir a humanidade de sua inercial mediocridade. Claro que não foi.

Adoro elaborações mais sofisticadas também, não empunho a bandeira da simplicidade como única ferramenta de libertação. Mas confesso que nesse instante da vida é a que mais toca esse precário coração.

Quisera que o mundo ouvisse mais Caymmi e trancedesse seus ensinamentos genialmente óbvios, contaminando todas as áreas do conhecimento desse maravilhoso vírus.

Em meus delírios, vejo esse mundo cayminiano administrado por políticos que não perdem o foco na objetividade a serviço do progresso. Recusam terminantemente soluções estéreis, enfeitadas de tantas redondilhas, todas ditadas pela vaidade e pelos interesses escusos.

Vejo o amor esquivar-se elegantemente das complicações construídas pela intolerância, celebrando com beijos o mais fácil a se fazer que é apenas respeitar, tolerar, ouvir e dizer "eu te amo".

Enxergo daqui uma arte atenta às pessoas reais, às sua limitações e necessidades espirituais, capaz de conduzí-las pacientemente a estados superiores de percepção. Provocativa, intigante, luminosa, é certo. Jamais arrogante, incompreensível.

Toda a minha tristeza dos últimos três dias resume-se a isso: morreu o gênio que produzia maravilhas vestidas de humildade.

Nele, o requinte disfarçou-se de desprendimento estético e cheirava a alecrim. Suas mulheres não tinham a menor vergonha de se encolherem, chegando pro lado querendo agradar. Seus homens eram corajosos e sentiam vontade de contar mentira e se espreguiçar em noites de lua. Todos humanos, mortais, falíveis.

Abaeté era essencialmente uma lagoa escura, rodeada de areia branca e isso era tudo. Como o rosto de Marina, não pedia adereços para se mostrar bela, única, especial.

Arnaldo Antunes falou, segundo Caetano Veloso, que a música dele, de tão bonita, não parecia coisa feita por gente. Bonita construção mas inadequada, penso.

A obra de Caymmi foi bela exatamente porque era formidavelmente humana. Tocava o coração do mais humilde ao mais erudito e isso, vamos combinar, é que faz um homem se aproximar de Deus, não o contrário.

Obrigado, mulato bacana da Bahia, do Rio e do mundo. Você honrou a missão confiada pelos deuses e tornou-se um dos nossos melhores, com quem qualquer um de nós gostaria de ter tomado uma cerveja sob a sombra de um coqueiro de Itapuan. Simplesmente genial a sua passagem por esse lugar aqui, encantado Dorival.

Siga na boa, obrigado.

2 comentários:

brasilidade disse...

Muito inspirado este post.
Seus primeiros parágrafos me deram um sentimento de nostalgia...=)

anrafel disse...

Paulo,

Só hoje li o seu post. Atrevo-me a dizer que foi o melhor que nos serviu a blogosfera a respeito de Dorival. Pelo menos foi o que eu gostaria de ter escrito.

Abraços.