POR OUTRO LADO...

quinta-feira, 12 de junho de 2008

QUANTO VALE GERÔNIMO?

Algo de muito estranho paira sobre a cena cultural baiana. Mais precisamente sobre as escadarias da Igreja do Passo, aquela mesma onde foram gravadas as cenas mais importantes de "O Pagador de Promessas", no início dos 60.

Há cinco anos, todas as terças-feiras, a partir das 19h:30, um homem carrega cruz e trombone na direção do altar do reconhecimento do seu valor artístico pelo poder público e pela iniciativa privada, cercado de músicos igualmente talentosos e tão obstinados quanto esse pagador de pecados. Todos dão o melhor de si e visivelmente divertem-se oferecendo a gringos e baianos de todas as cores, que lotam as escadarias do Passo, um espetáculo de música profundamente identificado com a estética baiana. Ninguém ganha um centavo por isso, apenas um palco pequeno e uma platéia agradecida.

Não quero entrar no mérito de avaliações provincianas que eventualmente contaminam a percepção, dentro da Secretaria da Cultura do governo Wagner, sobre o valor artístico de Gerônimo ou acerca suas boas relações passadas com os governos carlistas. Recuso-me a acreditar que o executivo baiano aja de acordo com critérios tão menores qunto esses.

Não faço coro com as viúvas do carlismo que, de suas pequenas fortalezas culturais, disparam ódio e ressentimento contra a Secult e seu secretário Márcio Meirelles. Entendo que há nessa pasta um claro alinhamento com as estratégias de inclusão do PT, praticadas por Lula e por Wagner, defendidas nas propostas dos Pontos de Cultura e do fortalecimento das iniciativas culturais do interior do estado. Vejo muito mais acerto que erros nessa propostas de pulverização dos recursos públicos como forma de garantir visibilidade e sustentabilidade a um número maior de iniciativas culturais, ao invés de assinar o trio da Daniela Mercury ou do Chiclete.

Mas é inegável que isso é uma escolha, que ao debruçar-se sobre esse viés, o governo pretere outras formas de gerir a cultura e isso nunca seria capaz de provocar unânimidade entre os agentes culturais locais. Há divergências e muita argumentação consistente contra essa estratégia e é muito bom que assim seja, que o debate permeie as tomadas de decisão dos executivos da pasta.

Por outro lado, não me inclino a ter compaixão por artistas que esperam sobreviver gostosa e mansamente dos recursos públicos. Esses tempos passaram e cada um precisa viabilizar a difusão de sua arte e seu próprio sustento de acordo com as leis do mercado cultural, gostemos ou não disso.

Não é o caso de Gerônimo. Para além de seu inegável valor estético, Gerônimo cumpre importante função enquanto agente cultural ao agitar as noites da região do Pelourinho com suas sonoridades afro-caribenhas, regadas à melhor noção de samba baiano. Atrai centenas gringos ávidos por respirar a música, a ginga e o sorriso desse povo festeiro.

Ou seja, dinamiza o Pelô, diverte o Pelô e faz do Pelô um lugar bacana de se ver à noite. Isso é ou não uma contribuição cultural e econômica importante e alinhada com as políticas das áreas de cultura e do turismo da Bahia?

Enfim, senhores e senhoras da Bahia, quanto vale Gerônimo?

Rezo para que Oxóssi cuide de seu filho e adoce o olhar dos homens públicos baianos sobre ele. Gerônimo é um patrimônio da Bahia, merece respeito e reconhecimento pelo que fez e continua fazendo, com vigor e qualidade. E recursos suficientes para dar continuidade ao projeto das escadarias do Passo.

Quem sou eu para dar conselhos, ainda mais quando não solicitados, ao Secretário Márcio Meirelles. Mas sugestão eu posso e faço: Márcio, abrace esse redondo trombonista baiano chamado Gerônimo, tome umas duas com ele, chame sua tropa da Secult e veja o que dá pra fazer -de verdade- para apoiá- lo nesse projeto. Você, a cultura baiana, todos nós temos muito a ganhar com um gesto dessa grandeza. Se houver algum ressentimento ou mágoa pessoal -não sei se há- mande-o tomar no cu, chame ele de rolha-de-poço, sei lá, espante a raiva e celebre as pazes com vinho e boa negociação.

Esse filme não precisa terminar como o outro, em que o pagador de promessa entra morto, deitado sobre a cruz, né?

É isso. Abaixo, um vídeo amador gravado numa dessas terças-feiras na Ladeira do Carmo.

Fui.





5 comentários:

regina ALVES disse...

olá Galo,

Obrigada pela materia,Geronimo adorou vamos ver se a galera se manifesta.

Axé
Regina Alves

paulo galo disse...

Guerreira Regina,

Que bom que vcs tenham gostado do que foi publicado. Torço muito por vcs e ficaria muito orgulhoso se o que escrevi -junto com o que outras pessoas escreveram imbuídas do mesmo sentimento- resultasse num entendimento maduro entre vcs e a Secult. Todos ganhariam com isso, não tenho a menor duvida.
Se houver novidades sobre esse assunto, por favor, me avise, ok?
Bjs pra vc e pra Gerônimo, minha irmã.

Carminha disse...

Ô RAPAZ! Acorda... O governo atual não mexe no Pelô porque o pelô tem a marca do carlismo. E vc ainda vem me falar de inclusão? Aonde ... passaste muito tempo em São Paulo sonhando com a volta pra uma Bahia que não existe mais. Aliás, nem o PT né fófi? Porque juntar no mesmo palanque fulano, beltrano, cicrano etc.. só pra eleger os cumpadres, não é o PT não. É outra coisa. Ah! E tem mais: a Secult não paga Daniela nem Chiclete, mas a Setur deu milhões para o Cortejo Afro, o Ilê, e muito mais agregados sabe? E o ministério da Cultura deu outros milhões e milhões pra quem? Prá quem? Pra Ivetinha!!! Ainda bem que eu ADORO todos eles. Inclusive Gerônimo. Gostei do cantinho aqui moço. Fique bem.
Carminha. A gordalouca.
[em tempo: descobri teu blog prourando por "Ingrid Bergman Casablanca"].

paulo galo disse...

Carminha, gordeliciosa:

Seja muitíssimo bem-vinda por aqui. Há muito desisti de formar consensos em torno do que penso, daí que mesmo vendo como imprecisas colocações como o do abandono do Pelô pela atual gestão em função de seu valor simbólico para as gestões carlistas -a meu ver uma péssima simbologia pra eles, os resultados da intervenção higienista que foi feita estão aí pra todo mundo ver.
Mais: o povo do Ilê e do Cortejo, entre outros, gostaria de saber que milhões são esses a que vc se refere. Houve grana sim e não há favor algum por parte do Executivo Estadual e do Municipal em dirigir recursos para entidades que, na prática, sustentam a imagem da Bahia do ponto vista do turismo e dão vida à peculiar cultura dessa terra.
É porisso que iniciativas como a de Gerônimo são importantes e merecem apoio financeiro.
Quanto à questão da inclusão, acho difícil negar que essa política e editais da Secult presta-se muito mais ao conceito de participação popular do que a política de cooptação dos governos carlistas.
Sem ingenuidades, acho que estamos vivendo um avanço importante e isso pede reconhecimento.
É mais ou menos isso. Volte mais vezes, viu?
Bjs.

mel disse...

Nossa..Salve...palavras bem ditas...
Obrigada...
Salve Rei Momo Gerônimo....