POR OUTRO LADO...

segunda-feira, 30 de junho de 2008

QUANDO A MENTIRA VESTE-SE DE LENDA



Foi num encontro de ex-alunos da Escola Técnica Federal da Bahia, no final do ano passado, que reencontrei um professor do curso de Geologia, anos sumidos das vistas um do outro.

"Ah, você mora no Santo Antônio, Galo? que legal, minha família tem uma ligação histórica com aquele lugar, sabia? meu bisavô foi quem destruiu, com um tiro de canhão, uma das torres daquela igreja. Ele era comandante da Marinha!"

Não entendi de onde vinha o orgulho dele diante do feito mas também não dei muita bola, pressentindo que ouvia mais uma deslavada mentira promovida ao status de lenda após anos e anos de entusiasmadas narrativas.

Tão convicta quanto às que afirmam que a Igreja de Santo Antônio só tem uma única torre, onde está instalado o sino, por causa de um raio, que destruíra a outra torre, certa feita.

Junte-se a elas a "informação", fruto de muita "pesquisa", dada pelo dono de um boteco que fica no Largo, que assegura que a igreja foi erguida com apenas uma torre por que a Igreja Católica usava como critério de arrecadação para a Diocese exatamente o número de torres. Segundo ele, a tabela de preços era absurda para as casas de Deus com duas torres.

Pois foi que na semana passada conversava com um antigo morador do bairro sobre uma outra lenda baiana, a do Esporte Clube Bahia, e tomei a decisão de tirar a história da torre a limpo. Fui procurar o velho pároco do Santo Antônio, Monsenhor Gilberto Pithon, em sua casa.

Gilberto foi o padre daquele lugar de 1975 a 2000, quando aposentou-se após 50 anos de sacerdócio. Mora ali mesmo, no velho Largo, cercado de lembranças e livros. É autor de 10 deles e tem profundo conhecimento histórico da paróquia e do santo.

Riu das histórias que lhe contei e rapidamente despiu-as exibindo documentos e fotos publicados em uma de suas obras, em que consta uma imagem feita da igreja no final do século XIX, quando ela não tinha torre alguma.

É isso mesmo, a 4ª e definitiva igreja erguida no velho Largo de Santo Antônio Além do Carmo para o louvor do santo -que era o padroeiro das forças militares lusitanas- simplesmente nunca teve duas torres. Sua única torre foi incorporada ao imóvel no começo do século XX, para abrigar o sino que está lá até hoje. Apenas isso.

Despedi-me do velho padre rindo dos heróis do passado e dos "historiadores" do presente. E com uma certa compaixão pelo professor, tão necessitado de fazer-se representado, de alguma forma, em atos que marquem a história de um povo, de um lugar. Mesmo que isso seja apenas uma mentira sincera.

Mas quem poderia reprovar-lhe o gosto da crença em uma lenda? vivemos tantas delas diuturnamente ao registrar o que a imprensa publica, o que os políticos prometem fazer, não é mesmo?

Pior: quantos de nós empenhamos tempo, energias, esperanças num amor que até as pedras sabiam que fora erguido com vigorosas lajes e colunas de sonho, prometendo uma vida feliz no futuro e entregando desassossego e frustração no presente?

Mentiras e seus estágios mais elaborados pelo tempo, as lendas, estão aí pra quem quiser contemplar e mesmo viver por conta delas.

Tá valendo também, só não pode é reclamar depois, dizendo que foi enganado, né?




"Pega Leão, estraçalha Leão, arregaaaaaça Leão!". Ver o Vitória vencendo no Barradão nesse Brasileirão 2008 com o ouvido ligado na melhor narrativa de gol da Bahia, a de Ranieri Alves, da Rádio Sociedade da Bahia, só não é melhor que cheiro de mulher e mocotó de pirão com cerveja trincando de gelada. A sonoplastia do Leão rugindo durante o grito de gol é algo de arrepiar, diliça!




Por falar em Barradão, espaço nobre do futebol brasileiro e palco do que promete ser a melhor campanha do Vitória em todos os tempos, queria falar um pouquinho sobre a proposta apresentada semana passada pela direção do quase extinto Baêa-Sua-Porra ao Vitória, numa reunião intermediada pelo presidente da Federação Baiana de Futebol. O Bahia quer mandar seus jogos na Série B no estádio rubro-negro.

Jorginho Sampaio, presidente do Vitória, declarou ao final do encontro que submeteria a proposta do rival à apreciação de seus pares. E que ouviria também a voz da torcida rubro-negra.

Deu uma clara pista da má-vontade diante do pleito tricolor, que em muito faz lembrar a fábula da cigarra (tricolor) e da formiga (vermelha e preta).

A provável recusa por parte da direção do Vitória deverá ser calçada, entretanto, em motivos bem mais consistentes que a rivalidade clubística. Do ponto de vista financeiro, inclusive, seria um ótimo negócio alugar o Barradão para o Bahia.

Seria, se isso não envolvesse riscos enormes de crédito e de depredação do patrimônio do clube. O Bahia tem um rol interminável de ações trabalhistas e o arresto de suas arrecadações é o caminho mais óbvio para garantir os direitos de seus reclamantes. O Vitória provavelmente vai virar apenas mais um credor dessa quase massa falida que é o Baêa-Sua-Porra.

Por outro lado, são mais que evidentes os sinais de que a massa tricolor vai arrebentar com o Barradão, por mais que seja prometido um policiamento ostensivo no estádio.

Pelo sim, pelo não, melhor que cada um cuide de sua vida e colha o que plantou.

A diretoria do Vitória tem o dever de avaliar essa questão com frieza e civilidade. E educadamente dizer não ao Bahia. Pode deixar que nós, velhos e novos rubro-negros, nos encarregamos de civilizadamente dizer fodam-se!

4 comentários:

Marcus disse...

E eu que me admirava da força espiritual, do milagre daquele santo lá em sima, intacto, mesmo depois do balaço de canhão que derrubou a torre?

paulo galo disse...

Vou mandar uma lenda novinha em folha aqui, Gusmones. Anuncie-a por aí, por favor.
Recente estudo histórico feito no Vaticano revelou que de fato houve um tiro de canhão naquela direção. A tempo Santo Antônio -um especialista em assuntos militares, não nos esqueçamos- desviou o balaço, que fodeu um quarteirão inteiro lá pras bandas da rua Siqueira Campos, no Barbalho.
Consta que o pároco da época foi instruído, em sonho, a instalar a imagem do santo onde está até os dias de hoje, vigilante ao movimento suspeito de embarcações militares.
O professor Cid Teixeira pode atestar que o que digo é a mais pura verdade.

Marcus disse...

Mas pelo menos poderiam cobrir a cabeça do sujeito, ali em SIMA (esta foi inacreditável, vai para a minha vasta coleção), tomando chuva e sol...

paulo galo disse...

Em sima ou em baicho, Antônio tem poder e há muito desistiu de esperar delicadezas por parte de seus devotos. Faz o dele e segue ali, atento ao movimento do porto.