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sábado, 28 de junho de 2008

O DESALENTO DE JOÃO BATISTA


Ufa, acabou a rave junina. João Batista deve estar com seu santo saco imerso em tijela de água gelada, tamanha a aporrinhação que se transformaram as outrora alegres e gregárias festas juninas.

Palcos enormes, multidões, trilhas sonoras marcadas por um pastiche de forró em que o baião, o xote, o galope, o xaxado -tudo virou uma só coisa, chata pra cacete por sua monocordia musical e literária, sempre muito próximo, quando não enfiado até o talo, na vulgaridade do óbvio apelo sexual.

Ganhou muito mais quem não se deixou seduzir pelo slogan megalomaníaco e falso "O Maior São João do Brasil" e escolheu participar de festas organizadas entre amigos e vizinhos, estas sim capazes de evocar o melhor do espírito dessa festa à fantasia em que a música, as comidas, figurinos, cenário e a grande encenação da quadrilha garantem a renovação do contrato social alegre, compartilhado, brejeiro.

As festas juninas são o exato oposto da carnavalização, do grande espetáculo. Transformá-las em produto de entretenimento de massas é, no mínimo, um equívoco conceitual por pelo menos três razões.

Primeiro que a temática junina e sua deliciosa trilha sonora agradam em cheio à festeira urbe soteropolitana mas nem de longe a apaixona. Diferentemente de Pernambuco e Paraíba, onde o forró é dançado de janeiro a dezembro, o recôncavo baiano forrozeia sim senhor mas goza mesmo é com o samba e com as infinitas variações afro-caribenhas, percutidas no fundo da alma de seu povo. Essa é a matriz que faz com que Salvador seja um vigoroso epicentro de festas públicas levadas a pandeiro e trio-elétrico e não com sanfona, triângulo e zabumba.

Em segundo lugar, a inobservância da identidade cultural do recôncavo gera um desperdício de recursos públicos para organizar e promover uma festa que não resultará em nenhum benefício cultural e econômico consistentes. Vira o que se viu no Pelourinho, uma festa como outra qualquer -grande pra cecete, cara pra cacete, é certo- mas incapaz de atrair um único turista ou movimentar a economia local em bases que justifiquem tamanho investimento como que fez o Governo da Bahia.

Por fim, essa porrança de dinheiro que foi gasto teria muito melhor destino se colocado a serviço da política cultural, a meu ver já exitosa, praticada pelo próprio governo Wagner, em que ao invés de alocar vultosas quantias nas mão de alguns poucos artistas e produtores preferiu-se pulverizá-la, via editais, entre os núcleos que fazem da cultura uma vivência mais próxima da população. Noutras palavras, o cachê fabuloso pago ao "sertanejo" Daniel por uma noite de apresentação no Terreiro de Jesus estaria muito melhor aplicado se patrocinasse um ano inteirinho de apresentações de Gerônimo nas escadarias do Passo, ali na Ladeira do Carmo, toda terça-feira.

Não é à toa que em Salvador São João continua mandando a empregada dizer que está dormindo, para os que batem à sua porta. O cara já leva uma vida dura de santo, não come ninguém, não tem tempo de ir ver o Vitória ganhar no Barradão e ainda por cima querem que ele vá se divertir ouvindo "Chupa Que é de Uva" no Pelourinho?

É querer muito do cara, né não?

Um comentário:

Marcus disse...

São João já foi, Banda Mel. Mas ouvi dizer que em Xique-Xique do Igatu ainda é possível entrar no clima do "Olha pro céu meu amor".