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segunda-feira, 5 de maio de 2008

VITÓRIA BICAMPEÃO E O BARÃO DE COUBERTIN


Quando eu era criança pequena, aqui na velha cidade da Bahia, tínhamos que aprender uma porrada de hinos. Tempos de ditadura militar, os hinos -com suas levadas marciais- compunham onipresentemente o universo cultural da época.

Além dos que eram ensinados em qualquer latitude brasileira, havia os que falavam da brasileirice levada às últimas consequências, que é a baianidade. Tudo que merecesse relevância, ganhava um hino.

Como o dedicado ao 2 de julho, que canta as glórias da vitória final do povo baiano, em 1823, sobre as últimas forças militares portuguesas resistentes à libertação do Brasil.

Ou o Hino da Primavera, composta por Adroaldo Ribeiro Costa, para celebrar a chegada da estação das flores e de quebra elencar um pequeno conjunto de valores que deveriam nortear a conduta da juventude da Bahia.

Por júpiter, não consigo lembrar do hino inteiro, apenas de algumas frases. Uma delas, contudo, parece não ter saído da cachola dos dirigentes e da torcida do Esporte Clube Bahia, antiga força futebolística que prossegue em sua inexorável trajetória de extinção. Como os tigres siberianos, não deverá sobreviver às próximas duas décadas.

Tem um trecho desse tal hino que fala assim:

"Lutar com braço forte
Em busca da vitória
Saber perder com glória
Sorrir na adversidade"

Ontem, logo após os jogos que deram ao Vitória seu bicampeonato baiano, via-se nos comentários da imprensa local e nas entrevistas concedidas por cartolas e jogadores o quão arraigado no mundo tricolor tornou-se a interpretação perdedora dessa estrofe, que leia-se, fala em vitória antes de derrota.

Esse ano, a torcida do Itinga desfila na segunda-feira pelas ruas da cidade com o orgulho de quem levou pau mas lutou até o fim. Um espetáculo de espírito olímpico, perder ou ganhar virou detalhe, possibilidades intrínsecas do futebol, apenas.

Ano passado, ouviu-se algo parecidíssimo: "perdemos o campeonato mas aquele jogo foi sensacional né?", referindo-se ao triunfo épico do Vitória sobre o Bahia por 6X5, em plena Fonte Nova.

O que está estragado nesse discurso? pela pulgas do camelo do meu pai, tudo!

Clubes de futebol de massa não são mantidos vivos, mesmo que entubados como o Baêa-Sua-Porra, para "saber perder com glória". Vivem para dar alegrias as suas torcidas. Alegrias consistentes, duradouras. Títulos, ora bolas.

Ganhar virou a exceção, o Bahia e sua torcida acostumaram-se com a derrota, como a um velho chinelo. Não levantam um troféu estadual desde 2001 e sentem-se plenamente recompensados ao vencerem em 2008 três Ba-Vi's e perderem, mais uma vez, o título.

Diferentemente do glorioso Esporte Clube Vitória, que aprendeu a vencer nos últimos 20 anos. Encantou-se com o doce sabor que só aos vencedores é dado conhecer, ao ponto de conseguir perder quando pode e ganhar quando necessário, como nessa edição do Baianinho.

Aos meus queridos amigos e amigas tricolores, que terão que esperar por 2009 para sonharem ver campeão baiano seu conformado time, mando calorosas saudações rubro-negras e votos de que o Bahia honre a tradição de saber perder com glória por muitas e muitas décadas, dando-se por satisfeito em competir, como declarava o Barão de Coubertin, fundador das modernas olimpíadas.

De preferência como o brioso time de Vitória da Conquista, que caiu de pé ontem em Camaçari, empalado com uma goleada estrondosa, 5X0.


Nós, vencedores de hoje e dos próximos anos, e nada chegados nessa nobreza olímpíca toda, escolhemos celebrar títulos no Barradão, nossa casa própria, onde o Bahia venceu-nos por 4X1, há 15 dias.

Valeu Leão. Agora é reunir forças para lutar com gente do nosso tamanho, né? Espancar inválidos em torneio local é obrigação mas permanecer na elite brasileira do futebol e planejar um título nacional com os pés no chão demanda mais talento que o possível com nomes como França, Marco Aurélio, Batatais...

Um comentário:

Lucas disse...

Ótimo texto. Digno de um rubro-negro de verdade!

www.ecvitorianoticias.blogspot.com