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terça-feira, 22 de abril de 2008

QUANDO UM MAIS UM É IGUAL A ZERO


Quantas coisas legais para mim mesmo fiz nesses 45 anos caminhando pelas ruas desse Brasil varonil?

Fui pai pela primeira vez aos 19 anos. E novamente aos 21 e aos 23. Dei sorte, casei-me com uma mulher de primeiríssima e com ela segui durante duas décadas. Guardo-a amiga e fundamental companheira, nunca sairá do meu radar afetivo.

Apartamo-nos do convívio matrimonial há seis anos. Ela ficou em São Paulo e cuida de Sarah, nossa primeira neta. Acompanha de perto o crescimento de Mateus, o segundo filho de Fernanda, nossa última cria.

Eu acabei voltando sozinho, com duas mãos atrás, para Salvador. Disposto a concluir uma graduação em Direito que ficou pelo caminho e a dedicar menos tempo aos congestionamentos e mais às corridas ou pedaladas matinais, gostosas rotinas incorporadas ao cotidiano há três anos.

Nos planos, aprender a surfar, praticar Yoga e judô, tocar saxofone. E escrever muito, até entender como fazê-lo bem.

Sem contas a pagar nem rendas a auferir, como falava-se outrora, no tempo em que discurso homoafetivo era apenas papo de viado e as profissionais do sexo podiam ser chamadas de putas sem que nada houvesse de politicamente incorreto nisso.

Uma espécie de volta ao tempo, de ter 20 anos de novo e poder refazer escolhas, que dessa vez valerão para a velhice. Um desafio e tanto, que horas excita, horas amedronta, permanentemente inspira.

A única certeza é a de que nada será como antes. Ninguém escapa ileso de uma guinada de 180º, pelo menos eu não sairei e espero humildemente rir mais que chorar ao final de tudo isso. E incorporar algumas -não muitas- novas habilidades.

Digo assim, com sincera despretensão, porque já perdi a esperança de desenvolver, por exemplo, um senso estético mais sofisticado que o que tenho, que me faz achar Bergman um chato, Tom Zé um mala e essa porra desse prédio aí de cima, o edifício Caramuru, um "patrimônio" arquitetônico construído em Salvador na década de 40 -a meu pobre ver tão importante quanto milhares de outros espalhados pelo Brasil- que segue, contudo, impedindo o investimento de milhões de dólares de um grupo hoteleiro espanhol, disposto a mandá-lo pro caralho e construir em seu lugar uma torre capaz de gerar empregos, impostos e de quebra requalificar e vetorizar novos empreendimentos na há muito decadente região do Comércio, bairro histórico de Salvador que se fez importante em função do Porto, ali em frente.

Só minha mal disfarçada ignorância explica tal opinião sobre esse edifício, recém-tombado pelo IPAC. Vai ver que de tanto babar com as criações de Le Corbusier, Gaudí e Niemeyer fiquei impregnado de monumentalidade na apreciação da arte arquitetônica, utilizando-me quase que exclusivamente desse viés para reconhecer valor no que vejo nesse campo.

Ou é essa confessada linitação intelectual ou a compreensão de que a Bahia precisa querer crescer, querer atrair novos investimentos, querer fazer desse lugar um ambiente acolhedor para os negócios e superar seus deprimentes índices sociais, entre os cinco piores do Brasil. Quem sabe a combinação das duas coisas, vai saber...

A cidade campeã brasileira do desemprego e da má qualificação educacional/profissional de seu povo não tem o direito de desprezar olimpicamente as iniciativas empresariais que possam contribuir para a superação desse clima de completo desacontecimento produtivo. Os investimentos públicos, estaduais e federais, ausentes nas últimas duas décadas, aumentarão fortemente nos próximos 2, 3 anos mas não serão suficientes para pôr a Bahia em trilhos de desenvolvimento econômico consistente e duradouro.

Isso só acontecerá quando a grana privada entrar no jogo pra valer, investindo forte na indústria do turismo e na da transformação, alterando o triste retrato de hoje, em que o estado importa praticamente tudo o que consome, de roupas à farinha nossa de cada dia.

Até quando admitiremos tanta inação embalada em discursos que se pretendem fiéis depositários da verdade urbanística e da cidadania? quantas décadas mais assistiremos intelectuais desgarrados das necessidades reais de desenvolvimento do estado impondo conceitos tão sofisticados quanto pretensiosos e incompetentes, que quase sempre levam ao nada, ao zero, a lugar algum?

Dizer não é fácil, qualquer sumidade pós-doutorada na reprodução dos sariguês tem a condição de erguer uma muralha de argumentos bem-intencionados contra uma proposta de investimento.

Quero ver é ter a competência de estabelecer marcos regulatórios que impeçam a sanha predatória dos empresários da contrução civil, por exemplo, sem espantar seus tão necessários recursos para o crescimento desse lugar.

Não precisamos de empresários que promovam o trabalho escravo e a destruição dos nossos recursos naturais e culturais, estamos de acordo.

Não aplaudo uma releitura de gabaritos de edificações que permita o sombramento de nossas praias e a obstrução da brisa para o interior da cidade por conta do emparedamento da orla.

Mas não estamos de acordo quando o assunto é criar regulações intransponíveis, como se vivêssemos numa aldeia hippie e fôssemos os guardíões da pureza, onde a mão suja da iniciativa privada jamais conspurcará.

À merda com tanta poesia canhestra. O século XXI já vai longe, Bahia.

Levanta dessa cama perfumada de alecrim e vamos trabalhar!

2 comentários:

Marcus Gusmão disse...

A la mierda los españoles.!!!

paulo galo disse...

En la mierda estamos nosotros, Gusmones!