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quinta-feira, 6 de março de 2008

MERGULHOS E EMERSÕES DE VÂNIA VASCONCELOS

Recebi na semana passada e li de sopapo uma pequena preciosidade literária em forma de crônicas intitulada "Mergulhos", editado pela Book Editores e de autoria de Vânia Vasconcelos.

Impossível dizer que fui tomado de surpresa diante da delicadeza daqueles textos. Conheço Vânia Vasconcelos há muito tempo e fiz parte da paisagem que formou seu olhar suave e atento. Tenho guardado na lembrança adolescente textos impregnados de lirismo, tecidos delicados de poesia tão frágil quanto vigorosa, próprio do indevassável universo das mulheres.

Nenca Vasconcelos é uma daquelas pessoas que o tempo não retira o brilho. Ao contrário, os anos a tornaram melhor, mais luminosa. Não é tarefa difícil descortinar tempo e distância para flagrar seu sorriso de eterna inquietude. Tá lá, inteirinho, nas páginas de sua obra.

Vânia é teimosa. Insiste na intervenção lírica no áspero mundo em que vivemos. Faz do discurso idílico e tomado de arrebatamento cívico uma inegociável base de relacionamento humano e literário. Revela, a cada texto, uma reiteração de fé nos homens que beira a inocência aos olhos de quem fez indiferente a visão de crianças pedindo dinheiro nos faróis das capitais brasileiras.

Mas nada há de inocência da doce tessitura de suas abordagens. Nenca fez uma escolha e a fez há muitos anos: acredita no poder da prosa e da poesia, do verbo escrito, declamado ou cantado. Alinha-se entre os revolucionários da palavra literária num tempo em que ser poeta é sinônimo de incapacidade de viver toda a densidade da política e das guerras.

Que bom, Nenca, revê-la cronista e militante da poesia após tantos anos. Que bom sabê-la capaz de mergulhar ávida e emergir a plenos e talentosos pulmões, pronta para salvar-nos dos muitos afogamentos do cotidiano.

Seus textos encheram-me de orgulho e saudades. Fizeram-me instantaneamente lembrar de um poema de Drummond que recentemente enviei para o meu filho mais velho, Gabriel, à guisa das angústias por ele reveladas diante da criação literária que faz-lhe ronda a algum tempo. O poema, uma obra de arte por muitos conhecida, chama-se Procura da Poesia e narra o encontro do artesão com o reino das palavras. Em um de seus trechos, ele fala assim:

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Vânia as leva consigo, faz do olhar livre e profundamente amoroso o veículo de seus escritos, seus belos escritos.

Melhor para os cearenses, que a tomaram da Bahia há quase treze anos sem a menor pretensão de devolver-nos.

Ainda bem que a boa literatura desconhece fronteiras geopolíticas. E ri, em compaixão, dos que vêm castelos de sonhos onde erguem-se verdadeiras fortalezas de amor ao próximo, esculpidas delicadamente por almas suaves como a de Vânia Vasconcelos.

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