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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

A MORTE E AS MORTES DO NÃO-VIVER


O corpo do meu pai parou de funcionar definitivamente no 14 desse mês, após 70 anos de atividade. Mas muito antes do ato final regido pela falência múltipla de seus órgãos, inexoráveis escolhas foram feitas por ele. Seus últimos 12, 15 anos de vida foram marcados pelas consequências de uma estranha opção em deixar-se encharcar por prazeres que ele sabia que um dia transformariam-se em faturas.

Fumou 3 maços de cigarros dos 12 aos 41 anos de idade. Nunca apreciou exercícios físicos. Comia vorazmente tudo o que lhe estimulava a visão e o olfato. Seu pai, como seus irmãos, morreram por conta da diabólica combinação da diabete com variadas cardiopatias. Desprezou as altíssimas probabilidades genéticas de portar os mesmos males e fartou-se enquanto pode.

Mesmo depois de diagnosticada a diabete e o mau funcionamento do coração, reiterou a opção de mover-se por impulsos básicos e renovou seu passaporte na Feira de São Joaquim, ávido por rabadas e mocotós e feijoadas. Para onde ia de carro ou táxi, nunca a pé.

Um dia, o óbvio aconteceu: a máquina começou a apresentar graves sinais de debilidade, crescentes até a semana passada, quando parou de funcionar no Hospital São Rafael, onde tantas e tantas vezes fora internado anteriormente para estabilizar os males provocados por uma irreverência próxima à total negligência com seu próprio corpo. "Prefiro morrer satisfeito que viver sustentado por pés de alface", dizia ele recorrentemente.

Não ignorava as consequências de seus atos. Conhecia-os bem e assumiu que viver intensamente, ainda que morrendo aos poucos, era a melhor decisão a tomar. E assim o fez.

Não foram poucas as vezes que Mirza, sua segunda mulher, seu filho Pedro e sua cunhada Elza entraram em forte conflito com ele por conta disso. Esforços ditados pelo amor a ele mas inúteis, dada a firmeza da espantosa escolha feita por ele. Nas poucas vezes em que conversamos a respeito nunca tive a menor ilusão de que haveria uma reflexão seguida de mudança de hábitos. Ele morreria assim, estava certo disso.

Em 2006, tive um torcicolo dos diabos e depois de tomar uma porrada de remédios fui à clínica de um massagista chinês, próximo à esquina da Consolação com a Oscar Freire. Mãos de aço e muita sabedoria, assim ficou o sujeito gravado na minha memória. E também por uma recomendação: "Sua respiração é curta e pobre. A ansiedade está comandando suas ações numa idade em que você está fazendo suas escolhas finais. Cuide de si e aprenda a carregar sua cruz com mais elegância, companheiro", finalizou ao despedir-se na porta do consultório.

Esse encontro, junto com uma série de outros fatos que depois mostraram-se a ele correlatos, levou-me a banir de uma vez por todas o sedentarismo de minha vida, verticalizando a escolha feita um ano antes por viver em equilíbrio físico. Grande parte dos 17 kg eliminados o foram a partir desse dia, quando comecei a correr e pedalar regularmente. E prazerosamente.

Vivo agora a luta final contra o tabagismo. Os trinta cigarros diários foram reduzidos a 5 ou 6 e em algum momento me verei livre dessa dependência psico-química, se deus quiser. Talvez não a tempo de me livrar dos mais de 30 anos vividos na companhia dos Hollywoods. As escolhas corretas de agora não nos redimem das horrorosas opções do passado, infelizmente.

Meu pai se foi deixando risos e saudades, assim escolhi guardá-lo na lembrança. Legou-me também a certeza de que a inevitável falência do nosso corpo pode ser estupidamente promovida por meio de muitas formas de não-viver, como as que ele criou para si.

Morremos diariamente -e em doses consideráveis- vítimas da ansiedade, da indelicadeza, da respiração intoxicada, do medo de sermos felizes, fortes, sábios.

Morremos quando renunciamos viver a aventura de um grande amor. E quando negamos, teimosamente, o óbvio final desse sonho.

Aproximamo-nos da morte quando aceitamos que nossas pernas não mais podem conduzir-nos para um banho de cachoeira e que é quase impossível ser feliz sem uma lata de Coca-Cola ou de cerveja.

Curtimos um mórbido não-viver quando acreditamos que só um médico ou um psicoterapeuta pode nos fazer caminhar vigorosamente todos os dias, respirando gostosamente.

O
grand finale de caixão, velório e cemitério é, em última análise apenas isso, a última cena de uma vida de escolhas e mais escolhas.

Somos o que pensamos, o que sentimos, o que falamos, o que comemos, o que cagamos. Somos as opções que definimos para nós mesmos.

Sei não, pressinto que a aventura da vida é mais elementar do que gostaríamos que fosse.

2 comentários:

Nilson disse...

Carpe diem, meu velho. Como será que aquele antigo conselho se encaixaria nessa discussão?

Marcus Gusmão disse...

Virtude 1 x 7 vício. Eu, meu pai Gedeão e seu Leonan não fizemos escolhas. Fomos escolhidos. O vício é mais forte, decide por nós lá no escaninho do inconsciente e do poder físico-químico dos tais neurotransmissores e quando a gente tenta pensar, já foi banda mel. O vício não depende de uma débil ordem mental, ele age. Seu Gedeão se foi aos 63. Um garoto. Herdei seus vícios e, durante a vida, acrescentei mais alguns inimagináveis por ele e por ora abandonados ou trocados por outros. Talvez piores, como o açucar.
Continuo a fazer planos, a tentar, mas a virtude é como o meu BAHIA e o seu vitória, timinhos pernas-de-pau, seja de primeira ou segunda.
São sete os pecados capitais, tente enumerar as virtudes e você vai tomar novamente uma goleada.
Sei não, meu velho Galinho, acho que o melhor é se entregar à uma frase de botequim que não me sai da cabeça nos últimos dias:
No tempo que eu pensava menos eu fodia mais!