POR OUTRO LADO...

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

LEONAN MANTERO TOSCANO DE BRITTO














Pai
,


Há horas estou aqui na frente desse monitor pensando em você, aflito por um sopro de intuição que ilumine a melhor forma de dizer obrigado, te amo.

Que bobagem. Sou todo gratidão e amor por você, velho guerreiro. Não preciso esperar por nenhuma iluminação especial pra dizer isso.

Ano passado, aqui mesmo nesse lugar, voltamos a estar próximos, ainda que em cidades distantes mais de 2.000 km, lembra? nem me passava à cabeça voltar a Salvador naqueles dias.

Só eu sei o quanto fui feliz por saber-me perto de você outra vez. E como foi confortável abraça-lo tão logo cheguei a Salvador, em agosto de 2007.

Vi alegria em teus olhos, querido, desde então até a semana passada, quando mais uma vez fui ter com você no Hospital São Rafael. Eu os vi brilhando também ao rever, orgulhoso, Gabriel, seu primeiro neto e meu primeiro filho. E a Volney, meu irmão tão querido por você também.

No fundo, eu sabia que operava-se nesses encontros, como em outros que você teve nos últimos meses, um mágico ajuste de contas. Momentos de perdão e de reafirmação de amor entre pessoas fundidas num só elemento. Foi muito bom que assim tenha acontecido, Nan.

Hoje, ao ver seu corpo inerte naquele mesmo hospital, derrotado pela morte, senti-me absolutamente parte de você. E um pedaço de mim também morreu.

Amanhã, finalizados os ritos no Campo Santo, sinto que um novo tempo de diálogo recomeçará entre nós dois. Sem reticências, sem grilhões emocionais. Irei buscar em você, meu pai, a força e o justo conselho pra seguir adiante sempre que a vida impuser-me dúvidas e tristeza.

Como agora, quando meu peito não cabe de tanta dor.

Obrigado, pai. Honrarei, orgulhosamente, seu nome e sua memória.

Siga na paz. Um dia estaremos juntos de novo e para esse dia, por favor, providencie pra gente as coisas que você mais amou e me ensinou a amar na vida: mocotó de pirão com pimenta, cerveja gelada e mulher bonita. Combinados?


5 comentários:

Marcus Gusmão disse...

Ao ler o título do seu post presenti o teor. É difícil meu caro, estes nossos velhos se vão, e nos deixam com nossas memórias. Que bom que tenhamos estas memórias. Que bom que você tenha tido o tempo e a oportunidade da rever muitas coisas. Não tive grandes desavenças com o meu, mas hoje sinto muita vontade de poder agradecer e relembrar junto com ele.
É isto meu velho, transmita meu carinho para sua mãe e seus irmãos. Grande abraço.

Nilson disse...

Bonita e verdadeira e sábia essa despedida. Nada mais tocante, mais humano que o perdão, e é legal essa idéia de vocês continuarem dialogando em outras dimensões. E que nesses encontros não falte pirão com pimenta, cerveja e mulher bonita! Minha solidariedade com a tua dor, meu amigo. E pra essa dor o remédio é o tempo: então eu te desejo, e à tua família, força pra viver o luto. Um abraço.

cacos meus botoes disse...

Paulo,
Solidarizo-me com sua dor. Conheço de perto o que é isso, qdo perdi meu pai aos 75 anos e, como você, trago dele muito boas lembranças. É o q fica, afinal, quando podemos dizer a tempo nossos sentimentos e nos relacionarmos como adultos com nossos pais. Tive o mesmo privilégio. Abraço fraterno, c.

DANIEL FONSECA disse...

Paulo,
Me emocionei com a sua mensagem. Há pouco tempo estávamos, cada um na sua viagem de vida, separados das pessoas que amamos. Hoje, felizmente, estamos de volta.
Que bom que você pode conviver com seu pai novamente, de pertinho e enquanto havia tempo mundando.
Aprendemos, cada um na sua viagem de vida, que o que vale é a existência e a qualidade da convivência.
...Receba meu abraço sincero.

Daniel

paulo galo disse...

Sou muito grato pelas manifestações de conforto recebidas pelos mais diversos meios, inclusive aqui nessa caixa de comentários.
Obrigado mesmo. E segue a vida.