POR OUTRO LADO...

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

COM QUANTOS CARNAVAIS SE FAZ UMA FESTA TODA BOA?

A maior festa pública do mundo terminou hoje. Posso até imaginar o infográfico que a Folha de São Paulo pulicaria no caderno "Carnaval", fosse ela editada em Salvador: juntando-se as línguas que se entrelaçaram desde quinta 31 até as cinzas de hoje, daria pra ir a Plutão e voltar. Três vezes.

Estava aflito, confesso. Ansioso pra ver com esses olhos castanhos, que a terra haverá de comer logo após a Copa de 2062, se o Carnaval de Salvador sucumbira ou não à pasteurização, se tinha ou não virado um desfile. Se perdera ou não, enfim, aquilo que sempre foi sua melhor face: ser várias festas dentro de uma só farra coletiva.

Após ver o que vi nesse carnaval, lembrei do velho Josias. Do alto de sua inesquecível e escrota sabedoria de buteco, disse-me uma vez que entre as melhores coisas da vida estava "cagar fumando, fuder beijando e mijar peidando".

Foi um alívio e um Prazer, assim mesmo com P maiúsculo, ver a guitarra virtuosa de Armandinho no Rio Vermelho, na noite de sexta 01; as incontáveis batucadas e pequenos trios (alguns excelentes) colorindo a Mudança do Garcia -que não mudou nada, continua uma deliciosa esculhambação e a melhor tradução da alma festeira e prazerosa do povo baiano, a despeito do rastro de bosta deixado pelos equídeos usados pra puxar as carroças. Aliás, o Alcaíde de plantão, João Henrique, o Beócio, teria dado melhor contribuição ao lazer momesco dos munícipes soteropolitanos se puxasse uma delas.

A nota dissonante, como sempre, foi a atitude prepotente, autoritária e frequentemente violenta da Polícia Militar. Entra ano, sai ano, entra governo, sai governo -e continua ser um ato de risco passar por um cordão de PM's exibindo juventude e pele negra .

Mas nem o Prefeito nem a PM conseguiriam embotar a pluralidade dessa festa majestosa. A garotada transbordante de vitalidade e sedenta por muitos e muitos decibéis tinha uma infinidade de encordoados "blocos de trio" à disposição, no Centrão e na Barrondina; a turma da terceira idade tava lá, com seus dedinhos, atrás do Paroano Sai Melhor e de O Povo Pediu -maldosamente apelidado por línguas peludíssimas de O Povo Senil.

Afoxés e blocos afro pra dar de pau, ainda que apenas nas madrugadas, fora das grades de televisão; blocos pra turma da meia-idade, também tinha; caixas de som postadas às portas de infinitos butecos mandavam ver com seus pagodes, arrochas, reggaes e outras sonoridades afins ou nem tanto.

Arquibancadas e camarotes e sacadas e janelas: admirar o cortejo foi a opção de muitas outras pessoas, que desembolsaram nada, pouco ou muito para dar continuidade à velha tradição carnavalesca dos salões de clubes sociais, onde, em priscas eras, asssistia-se a festa comportadinha dos outros, o que um dia levou Caetano Veloso a decretar "todo mundo na Praça e manda a gente sem graça pro salão". Com a diferença de que agora fica-se de olha pra rua.

"Pipoca" só teve moleza no Rio Vermelho e na Mudança do Garcia. No caminho dos trios elétricos é puro sufoco. Isso só vai mudar se os trios independentes e os blocos descordoados forem fortemente patrocinados pelo poder público e/ou pela iniciativa privada, especificamente para esse fim. Um desafio para os próximos carnavais, que precisa ser assumido de uma vez por todas: "repipocarizar" e "descordoar" as ruas ao máximo, nos intervalos entre um bloco e outro, é fundamental para a preservação da espontaneidade, alma dessa festa.

Resumo da ópera: o carnaval de Salvador continua um luxo. Pode vir, imagens lindas como a dessa menina lá em cima, clicada por Fernando Vivas, tem aos montes. Gente doida pra dançar, beijar na boca e dar risada, então, nooooossa!

Escolha o seu Carnaval de Salvador que você quer curtir durante o Carnaval de Salvador de 2009 e seja feliz ioiô. Muito feliz, iaiá!

Festa carnavalesca sob medida, meu rei, só na esquina do paralelo 13 com o 38 de longitude. O resto, com o perdão da imodéstia, é desfile de uma nota só.

6 comentários:

Anônimo disse...

Paulo, concordo com o q vc diz sobre o Carnaval do Red River: estive lá na 6a e no sábado de Iemanjá, e a festa Dela tava belíssima, como não se vê há tempos. Pulei e me emocionei ao som de Armandinho, e só discordo qto vc se refere ao Paraono Sai Milhó (e não Melhor, como grafado). Eles são ma_ra_vi_lho_sos e existir e resistir a 45 carnavais não é moleza, viu?
Sim, cheguei aqui através do Biscoito do Idelber. Já te lia e só hj comento.
Bjo, moço!
Cipy

paulo galo disse...

Bem vindo, Cipy. O Povo Pidiu e o Paroano são pérolas do carnaval, estamos de acordo. Não são o meu carnaval, é certo, como tb não os são os camarotes espalhados ao longo do circuito. Mas gozo de felicidade em ver que eles fazem a festa de muitas pessoas, o que já é bastante para comemorar a pluralidade dessa festa bárbara. Volte sempre, moço (ou moça?). Beijos.

Anônimo disse...

Moça, moço!
Bjos,
Cipy

Martha Rocha disse...

Galo, meu querido!
Você está coberto de razão quando diz que a gente pode escolher o carnaval que quiser curtir. Eu, do alto dos meus quase 40 e tantos anos, já estou naquela de levantar os dedinhos, sentar numa mesa do Terreiro de Jesus e ficar olhando as batucadas passarem. Mas também não pude me furtar em assistir ao desfile de fantasias Gay, que nos nossos velhos tempos era na escadaria do Palácio dos Desportos, na Castro Alves e que agora é debaixo dos bigodes do prefeito, ali na Praça Municipal. Amei, como sempre!

Marcus Gusmão disse...

Galo, velho!
Que bom ler seu discurso desprovido de saudosismo. Você traduziu o que eu levei um tempão para constatar. Tem festa boa pra quem tem a vontade e o astral, mesmo que a fubica do corpo não aguente mais o pique d`outrora.
Grande abraço.
P.S Também achei a rede do Rio Vermelho a peça mais bonita de todas as decorações que já vi nesta cidade. Por mim permaneceria lá o ano inteiro. Ou, pelo menos, que volte todo ano.

paulo galo disse...

Marthinha, meu amor: guardei para hoje, 12 de fevereiro, o agradecimento pelo seu comentário só pra te dizer de público FELIZ ANIVERSÁRIO, lindona. Mil beijos!
Gusmones, meu velho amigo: tava aflito com sua ausência nesse puleirinho. Por sua causa, continuo detestando rotativas e jornalões. Mas continuo gostando imensamente da sua pessoa.