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quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

A GRANDEZA DE JOÃO



A roda já estava formada quando cheguei. No banco comprido, encostado na parede, três berimbaus, um agogô, um pandeiro, um reco-reco, um atabaque. Ao lado, numa cadeira com encosto e apoios para os braços, um homem velho acompanhava, atento, os movimentos da roda e do salão.

Viu, contrariado de pronto, quando um de seus discípulos entrou na roda pra jogar com o branco alto, fingindo não poder dobrar o joelho esquerdo. Pura sacanagem, como que a dizer ao oponente que com ele até com uma perna daria conta. No jogo, sua perna "dura" dobrava e respondia com perfeição às exigências de apoio solicitadas. Cheio das artes, esse negão, pensei com meus botões.


Era visível uma certa tensão no ar daquele velho Forte do Santo Antônio, rebatizado Forte da Capoeira após magnífica reforma. O adversário era branco mas nem de longe era inocente nas manhas da capoeira Angola. A testosterona lentamente entrava em ebulição e o homem velho sabia que teria que parar o jogo em algum momento. Mas deixava o barco correr.

Até que a troça do negão produziu o resultado esperado e uma rápida troca de golpes mais viris anunciaram que o impasse cênico passara a exigir outra solução. Impossível a contenção dali por diante, aqueles homens iam mesmo era pro pau se João Pequeno de Pastinha não estivesse ao comando.

A voz ainda firme e repleta de autoridade, a despeito de seus mais de 90 anos de idade, estancaria a marcha de um pelotão inteiro de soldados, quanto mais de dois seus mestres.

"Pára. Venham aqui. Isso aqui é lugar pra jogar, não é pra luta. É pra brincar, é pra jogar, lutar não. Tá entendido?"

Voltaram pro jogo pra logo depois cumprimentarem-se e darem lugar a outros capoeiristas.

Aula de capoeira de Angola, oferecida gratuitamente no último domingo nessa velha cidade da Bahia pelo último discípulo vivo de Mestre Pastinha.

Uma emoção que um dia os marqueteiros jeje-nagôs descobrirão valer muito mais para o turismo que o hedonismo maníaco do axezão e do pagodão trioeletrizado.

Salve João. Pastinha sorriu de novo domingo passado, meu velho camarada.

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