POR OUTRO LADO...

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

FONTE NOVA: O DESABAMENTO DAS VELHAS MÁSCARAS

O governador da Bahia, Jaques Wagner, anunciou a imediata interdição e a futura demolição do estádio Otávio Mangabeira. Segundo ele, no mesmo local será construído uma moderníssima praça esportiva, apta inclusive a cumprir todas as exigências da FIFA para a Copa do Mundo de 2014.

Muito bom, governador. A Bahia merece mesmo um estádio à altura do seu povo e de suas tradições esportivas. Mas a gravidade dos acontecimentos do último domingo, em que 7 pessoas morreram, tragadas pelo buraco que se abriu sob seus pés durante o jogo BahiaXVila Nova, impõe a necessidade de adiarmos a comemoração dessa decisão. E refletirmos detidamente sobre alguns aspectos dessa e de outras tragédias correlacionadas ao desprezo pela vida humana.

1) É impensável que ficarão impunes os responsáveis pela morte dessas pessoas. O Governo da Bahia deverá responder por crime de omissão ao não ter interditado o estádio logo após sua posse e pior, ter permitido seu uso com lotação máxima. A Sudesb tinha conhecimento das precaríssimas condições estruturais da Fonte Nova e agiu como se fosse um órgão promotor da ascenção do Esporte Clube Bahia à segunda divisão do Brasileirão. Assumiu o risco do anunciado desastre e deverá pagar exemplarmente por isso.

2) As ruínas da Fonte Nova, pintadinhas de azul, expõem com eloquência o que foram os anos da gestão ACM para o patrimônio público baiano. Diretamente ou por meio de seus gerentes-governadores ou gerentes-prefeitos, desprezou-se a manutenção dos equipamentos nos limites da incompetência ou mesmo da má-fé. Não importava manter funcionando o que fora inaugurado com pompa e circunstância: recebida a fatura política, dane-se o que viria depois. Impossível esquecer as palavras de Caetano Velloso: "Parece obra e já é ruína". As fontes secas do Campo Grande, da Praça da Sé, da Piedade; o asfalto precário e os faróis apagados das ruas; escolas e postos de saúde em avançadas condições de deterioração. Simplesmente não há cultura gerencial de manter-se o que foi erguido com os recursos da população. Parou de funcionar? põe abaixo e faz outro, pronto!

3) Essa declaração de Wagner tem um valor simbólico muito ruim. Perdeu-se a oportunidade de pôr a nu o flagelo gerencial do carlismo expresso no desprezo pela manutenção do patrimônio público e, pior, anunciou-se a repetição da mesma prática. Péssimo nesse sentido e incompreensível por não ter dito com todas as letras de que estaria empenhado na apuração das responsabilidades de sua equipe e que não hesitaria em punir se necessário fosse. Faltou culhão.

4) A responsabilidade das gestões anteriores não exime de culpa o ato de omissão do atual governo em relação à interdição da Fonte Nova. Deveria tê-lo feito e não o fez. A coragem demonstrada na área da cultura, por exemplo, faltou por completo nesse episódio.

5) Ainda há tempo do Governador mandar um aviso claro ao seu time de colaboradores, demitindo a direção da Sudesb. Às vésperas de completar o primeiro ano do seu mandato, tá na hora de trocar os copos para a próxima rodada, substituindo pessoas que provaram-se incapazes de fazer frente aos desafios de reconstrução da Bahia. Acima dos afetos pessoais está o dever de corresponder às expectativas do povo baiano de ver-se representado no Palácio de Ondina por gente corajosa, competente, criativa e realizadora. Hora de pôr as cartas na mesa, Governador.

6) A imprensa carlista vai faturar alto com esse episódio e a oposição tem o direito político de lucrar com isso. Explorar os erros do adversário faz parte do jogo. Só não dá pra dizer que a implacável cobertura do jornal A Tarde foi movida por interesses subalternos ou vinculada às conveniências políticas de A ou B. Os fatos são gritantes e estranho seria se o velho jornalão baiano fugisse de sua responsabilidade jornalística diante de tão grave acidente.

7) O governo Wagner não pode ser julgado pela performance perna-de-pau de sua Sudesb. Está operando transformações estruturantes em várias frentes e deverá ser um marco na história gestão pública baiana, se tiver a coragem de substituir alguns gestores incompetentes, que já são, a essa altura, facilmente identificáveis.

8 comentários:

Franciel disse...

Paulo,
você resumiu em duas palavras: faltou culhão.
E acrescento eu: sobrou culhudas.

P.S Quanto ao jornalão, permita-me discordar. Já, já explicarei o porquê na intimorata Ingresia.
abraços.

paulo galo disse...

Muito bom vê-lo aqui, Fran.
Estou vindo da brava Ingresia, feliz com sua escrita sobre o jornalão do dr. simões no episódio em epígrafe (receba!).
Marcia Rodrigues tem toda razão em desmanchar-se em elogios ao Ingresia -mesmo descontados os arroubos de uma alma generosa como a dela.
A ingresia é uma grandeza de blog: temas bacanas, abordagens criativas, textos corrosivamente suaves. Assaz porreta.

dr. Caligari disse...

O sr poderia apontar onde o governador "Está operando transformações estruturantes em várias frentes e deverá ser um marco na história gestão pública baiana"?
Na cesta do povo?
Ou seria na fonte nova que, nas palavras do sr. jaques wagner, no programa conversa com o governador do dia 30/10/2007, recebeu investimentos de "R$3,5 milhões... Ela só podia ser ocupada em 25%, hoje já tem 100% de ocupação. Hoje nós estamos fazendo a revisão dos vestiários, banheiros e tribuna de honra, portanto até o ano que vem, 2008..."
Ou seria na secretaria de cultura que resolveu adotar velhas práticas para calar vozes dissonantes?

A questão maior é enxergar que tanto a direita quanto a esquerda esta terra é geridas por almas sebosas. Indepentende da corrente ideológica.

paulo galo disse...

dr Caligari,
Querendo, sinta-se dispensado do "senhor". Se autorizado, tô quase tratando o doutor por Caliga. Voltei pra Salvador há pouco e se há uma coisa que é facílimo reaprender por aqui é a informalidade no trato com as pessoas, sem a dispensa da reverência intelectual e a da boa vontade para o debate.
Voltei há pouco, como disse, mas morei 20 anos aqui. Conheço de perto a incapacidade gerencial da esquerda baiana -que a propósito não difere muito do perfil do resto do Brasil.
VocÊ apontou muito bem a questão da Fonte Nova, que já fora objeto da minha estranheza em post publicado antes do crime de domingo último. Há mal cheiro nessa área, maior que o exalado dos banheiros da Velha Fonte.
Mas não quero cometer o equívoco do açodamento, de julgar a gestão Wagner de forma definitiva com 11 meses de mandato a partir desse episódio. Essa também é uma prática sebosa, a da intolerância e da maledicência.
É certo que não temos a mesma percepção do que vai na área da Cultura. E possivelmente em outras.
Mas sua opinião enriquece esse lugar aqui e essas informações detalhadas sobre a Fonte Nova me interessam, não as conhecia. Você pode me indicar onde as achou?
Seja sinceramente bem vindo.

dr Caligari disse...

Neste site aqui:
http://www.comunicacao.ba.gov.br/conversa
Têm a íntegra do programa Conversa com o Governador do dia 30 de outubro de 2007.
Este é o endereço do arquivo: http://www.comunicacao.ba.gov.br/radio/2007/10/30/bahia-quer-ser-sub-sede-da-copa-de-2014.mp3
Obrigado pela gentileza.

cacos meus botoes disse...

Paulo,
Tenho visitado frequentemente o "galinho" a respeito da tragédia da fonte nova. Acho sua postura muito isenta, reclamando, como muitos blogs, a apuração e punição dos responsáveis. Parabéns.
Apenas queria reforçar a pergunta de Dr. Caligari sobre as frentes q serão marco da gestão de Wagner. Acompanhando sua postura lúcida, fiquei curiosa para ouvir mais detalhes dessa sua visão otimista. Só para o meu entendimento, q fique bem claro. Acho dispensável esclarecer q duvido do poder vertical, de modo geral, acho uma inviabilidade humana. Abraço, c.

paulo galo disse...

Caliga, meu velho
Chris, querida

Acho que tá na hora de puxarmos um debate sobre o primeiro ano de Wagner em Ondina. Aceito o desafio proposto e vou começar a reunir informações, para em breve começar a postar aqui. Conto com a intervenção de vocês e de mais quem se dispuser a meter a colher.

cacos meus botoes disse...

Paulo, querido,
Adorei a idéia de um "fórum" sobre o primeiro ano do governo Wagner. Com certeza estarei atenta para participar no que for possível. Abraço e vida longa ao blog. c.