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quinta-feira, 2 de agosto de 2007

SANGUE NAS REDAÇÕES: A VITÓRIA DO "NOTÍCIAS POPULARES"

A Câmara dos Deputados, por sua CPI do "Apagão Aéreo" e a imprensa brasileira protagonizaram nessa quarta-feira uma das cenas mais deprimentes que vi na minha vida: a divulgação do diálogo mantido entre os pilotos do TAM 3054 e deles com o controle de Congonhas nos minutos que antecederam aquele terrível acidente.

A quê serviu essa divulgação, além de maltratar ainda mais os familiares das vítimas da tragédia, atrair audiência para todos os veículos de imprensa e holofotes para esses deputados?

A nada que pudesse ser útil às investigações, que precisam apontar responsabilidades pela morte absurda de 200 pessoas aqui em São Paulo, dias atrás. A conversa dos pilotos entre si e com a torre em NADA esclarece o que aconteceu sem o devido cruzamento com o conteúdo da outra caixa-preta, a que tem os dados do comportamento da aeronave durante o pouso.

Eu não posso acreditar que a imprensa brasileira tenha assumido de vez sua condição de produtora de emoções primitivas como estratégia comercial necessária para sua sobrevivência. Perdeu-se por completo os limites éticos e humanos que deveriam presidir o trabalho árduo da produção de conteúdo noticioso sério e informativo.

Vale tudo, qualquer coisa que gere emoção, mesmo que mórbida e inútil, para faturar em circulação, audiência, publicidade.

Não há, nesse terreno, diferença alguma entre transcrever o desespero desses Comandantes diante da morte ou publicar fotos de corpos carbonizados. O efeito seria o mesmo e o resultado comercial, idêntico.

O Notícias Populares, quem diria, virou uma espécie de encosto jornalístico. Na linguagem espírita, diria que um obsessor bem sucedido: conseguiu, depois de morto, influenciar decisivamente as redações de todo o país, fazendo da crônica policial sensacionalista um paradigma para todas as editorias. Vivemos o tempo da estética do macabro nas rádios, TV's, jornais e revistas, portais de internet.

Crimes, escândalos, denúncias: a informação foi pro ralo, a notícia-choque é a que persegue-se delirantemente. E as "provas" de hoje, se desmentidas amanhã, não deixarão editor algum envergonhado, como no caso da pista sem grooving, lembram? ora, se não deu pra pôr a culpa nas costas da Infraero e da ANAC, como se quis no primeiro momento, paciência. Faça como a Veja, responsabilize os pilotos e se ainda não der pé, manda a conta para a TAM e para a Airbus. Mas não perca a emoção, estique ao máximo os efeitos da tragédia até que se encontre uma nova tragédia ou um outro escândalo.

Para concluir esse assunto, que embrulha-me o estômago há mais de 15 horas, leia AQUI uma notícia publicada no Estadão, que dá conta do espanto causado no exterior pela divulgação do conteúdo de áudio de uma das duas caixas-pretas da aeronave. É gravíssimo precedente em todo o mundo e causou indignação generalizada.

O parlamento brasileiro tem todo o direito de acompanhar de perto as investigações do acidente de Congonhas. Mas NÃO tem o direito de fazer promoção pessoal ou política, tratando com leviandade -em parceria com a imprensa- um assunto tão grave como esse.

4 comentários:

Márcia disse...

Paulinho, depois desse episódio lamentável da liberação do conteúdo da caixa-preta, decidi: sou contra CPIs. Elas só servem para os deputados e senadores se "amostrarem", posarem de éticos e sérios. Concordo com vc, divulgar isso é uma prova de incivilidade sem tamanho. Assim como a divulgação na internet de fotos dos corpos. Morbidez ao extremo..

Liliana disse...

Devo ser uma criatura abominável em meio a uma montanha de gente boa, mas em todo caso, compartilho minha opinião. Lá vai:
Acho que, neste caso, é relevante ouvir e divulgar as últimas palavras de piloto e co-piloto. Há dúvidas sobre o que falhou: o humano, a máquina e/ou a pista? Qual falha teria sido decisiva para o acidente?
Não bastasse, há interesses múltiplos nesta investigação — do governo (top, top, top), da sopa de letras do setor(Anaisso, Conseaquilo...), da empresa aérea, e por aí vai.
Desculpem, mas o desastre no Brasil tem como cenário uma grave crise aérea de 10 meses. Isso muda tudo. O caso é especial. Não pode ser comparado com outros acidentes em outras partes do mundo.
Tem de divulgar tudo.

paulo galo disse...

Liliana,

Por me conhecer -e saber da jornalista talentosa e da mulher de primeiríssima que vc é- não posso levar em consideração as hipóteses de que vc é abominável e eu tão gente boa assim.
Sua pontaria costuma ser melhor, Lili. Senão, veja:

1) A divulgação pela imprensa dos diálogos foi absolutamente desnecessária. A CPI tem o direito constitucional de acompanhar irrestritamente as investigações desse e e de qualquer outro acidente. Nela estão representados os partidos da situação e da opsição, a garantir a busca pela verdade dos fatos. A publicação desse teatro de horror só serviu aos interesses financeiros da imprensa e e aos políticos que faturaram em exposição pública no papel de "defensores da verdade".

2) "Caos aéreo", "Apagão Aéreo", "Crise Aérea": em quê Liliana, objetivamente, os desastres do Gol em 2006 e o do TAM mês passado estão relacionados com o imbroglio jurídico e operacional da infraestrutura aeroportuaria brasileira?

Teria a maior honra em publicar nesse blog um artigo seu que respondesse a essas questões. Isso aqui anda meio morno e nada como um debate bacana pra vida ficar mais colorida!

Beijos.

Liliana disse...

Paulo, eu não vou escrever sobre isso porque amanheci com o reverso pinado depois daquele oceano de chopp.
A noite foi absolutamente agradável.
Estávamos, Cid e eu, comentando isso depois: como é gostoso sentar com três ou quatro amigos e conversar como se deve. É a mágica do intimismo, não é?
Boa viagem, querido. Nos vemos lá ou cá e ainda por e-mail.
Grande beijo, Liliana