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sexta-feira, 10 de agosto de 2007

PARALELAS E MARGINAIS

Fino menino, não me faz feliz desapontar a quem quer que seja. Porisso vivo infeliz, decepcionando diariamente os que se aproximam ávidos por fraternal convergência, uma impossibilidade crônica pra mim, almazinha atavicamente movida pelo debate.

Mal pus os pés na terra quente e fresca da Bahia e acho que vou desapontar meu inspirador e condutor pelos mares blogosféricos, Marcus Gusmão –velho amigo e autor do Licuri. Questionou-me recentemente se eu voltei à Bahia na condição de “baiano” legítimo ou “apaulistanado”.

É pior que isso, Gusmão. Voltei mais iconoclasta que nunca, visceralmente avesso à qualquer epistemologia geográfica. Voltei apaulistanado, carioquizado, sulmatogrossensizado (olha só o que dá essas brincadeiras gentílicas, ui!). Trago também a europa, a áfrica e a ásia vivas nas minhas retinas virtuais cansadas mas nem de longe esgotadas.

Se serve de consolo, nunca me senti mais baiano que hoje, apesar de pronto pra entender de forma aplicada os versos de Caetano em “Estrangeiro”, em que ele se dizia menos estrangeiro no lugar que no momento, referindo-se ao Rio de Janeiro.

A Bahia não é maior ou menor, pior ou melhor, mais ou menos que qualquer outro cantinho dessa galáxia, Gusmones. Ela é linda e medíocre com qualquer lugar e não merece comparações redutoras, feitas à base do “São Paulo tem X museus, Salvador tem Y”, “o PIB baiano é tanto e o do Rio é tanto vezes X”.

Interessa-me saber, por exemplo, se auto-referenciamento da sociedade baiana torna-a mais ou menos permeável ao mundo que a cerca além de suas fronteiras. Se o que se faz e pensa localmente tem o condão de influenciar e ser influenciado, de crescer na troca experiências culturais com outras regiões do Brasil e do mundo.

Se essa foi a alusão pretendida, Marcão, você está certo: voltei impregnado de multiculturalismo e penso que esse é o exato ingrediente para fruir das delícias da Bahia sem virar parte da paisagem a ser fotografada para algum folder da Bahiatursa, que nem aquele Preto Velho oficial lá do Pelourinho.

Urbi et Orbi, Orbi et Urbi. Não mão dupla sempre fica melhor, né não?

Tenho certeza que estamos de acordo em que a tolerância e a porosidade diante do mundo nunca é mau negócio para pessoas e sociedades. Espero ser esse o móvel, por exemplo, das intervenções na malha viária dessa cidade do Salvador. Se observadas as experiências urbanas de outras capitais –e São Paulo é o mais eloqüente exemplo de como tornar inviável a locomoção- a vertigem que tive ontem, do alto da passarela em frente ao Extra da Avenida Paralela, não se realizará. Ontem eu vi às oito da noite um transe de incorporação da Marginal Pinheiros sobre a Paralela. Garanto para quem não viveu diariamente o inferno das marginais paulistas que esse é um filme conhecido. A gente morre no final.

Se as intervenções feitas e a fazer na região do Iguatemi, da Rótula do Abacaxi (cabe rebatizá-la para Patela do Abacaxi?) e na Avenida Paralela não forem orientadas para o transporte público expresso e de boa qualidade, viveremos um caos muito pior que esse em poucos anos. Viveremos o cassete, jacaré, antes disso mudo pra Natal ou São Luiz. Ainda não tive chances de pesquisar o assunto mas esse papo de redução da linha do metrô em função de cortes orçamentários precisa ser duramente combatido, se verdadeiro.

É inaceitável que Salvador reproduza a opção feita em outras cidades pelo transporte individual, em detrimento da solução pública de metrô e ônibus, esses trafegando em faixas exclusivas que garantam velocidade, conforto e segurança aos seus usuários. A pergunta é: os projetos em andamento, fortemente alavancados pelo governo federal, defendem esse conceito?

Apaulistanados ou não, meus pitacos sobre esse e outros temas estarão presentes sempre por aqui. Agradeceria muito se me encaminhassem links ou mesmo textos sobre o assunto. Publico aqui, prazerosamente, qualquer coisa que contribua para essa discussão. E vamos ao debate!

Inté.

3 comentários:

Marcus Gusmão disse...

Rapaz, cadê você? Espero que não passe do próximo final de semana este nosso reencontro. Se houvesse contato, poderíamos nos encontrar ontem, no aniversário de Anselmo, na Picolino. Você aproveitava e conhecia o Circo Picolino, minha atual cachaça.
E a Paralela é a melhor tradução de Salvador hoje. Mudei de um lado da cidade para o outro justamente para evitar a Paralela, onde eu morria aos poucos, quatro vezes por dia. Aquilo não pára e a comparação com as marginas paulistanas não é de todo estranha.
Mas enfim, bem-vindo. A gente se vê.

paulo galo disse...

Continuo ansioso pra ver vc e toda a nossa família blogosférica baiana, Marcão. Esses primeiros dias aqui em Salvador tem sido marcados pela tentativa de ajustar o fuso emocional e acompanhar meu pai no Hospital São Rafael, internado a 33 dias, lutando pra superar um quadro clínico muito delicado. Que tal marcarmos algo para quinta 16? tipo 18, 19 horas no Rio Vermelho? se você achar legal, marque com a galera e me avise, flw?
bjs

Sílvia Carrasco Braga disse...

O transito em Salvadro está cada dia mais caótico. No horario de meio dia e das 18hrs aquela faixa Lucaia-Iguatemi e a "garganta do inferno" (aquela faixa estreita da Magalhães Neto espremida por prédios empresariais, a Casa do Comércio e o Trade Center)é impraticável, gasto todo dia de 40 min a uma hora ali só pra chegar no Costa Azul, logo ali do lado...
Sei não, mas sem metrô, com a qualidade do transporte público atual São Paulo vai parecer um paraíso perto que isso aqui vai virar...