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sexta-feira, 6 de julho de 2007

COISA DE BAIANO IV – O FUTEBOL


Uma vez eu contei aqui sobre a primeira vez em que fui a um estádio de futebol. Falava sobre o meu pai e de com a transmissão de valores tipicamente masculinos, como a paixão pelo futebol- une indelevelmente pais e filhos.

Pra quem não leu esse post, relembro: domingo à tarde, decisão do Campeonato Baiano de Futebol de 1972, Bahia X Vitória.

Osny, André, Mário Sérgio. Ataque vermelho e preto de sonhos, lindo ponto fora da curva nos tricolores anos setenta do futebol baiano.

Todas as outras vezes –e não foram poucas- em que voltei à Fonte Nova foi para renovar as sensações embriagantes daquele dia. A primeira delas, entrar no estádio pelas catracas da Ladeira da Fonte das Pedras, a parte nobre daquele lugar, por abrigar a torcida do Vitória. O lento subir das escadas rumo ao anel superior descortinava aos pouquinhos o espetáculo do sol sobre o enorme tapete verde do templo maior do futebol baiano. Que lindeza, tanta gente, tanta expectativa, quanto delírio ao soar o apito do árbitro. Esperanças eternas de ver meu Vitória passar sobre o Bahia qual impiedoso rolo compressor...

Foi na Bahia que aprendi quase tudo o que sei. Inclusive a me encharcar de emoção ao ver o Vitória entrar em campo, saudado por sua torcida aos gritos e foguetório. É mágico o momento em que um time entra em campo, vive-se um cataclisma de emoções quase igual ao de um gol. Não conhece esse prazer essencial quem acompanha o futebol pela televisão, além de naturalmente não conseguir enxergar a completa disposição dos jogadores em campo, somente possível aos olhos de quem pagou pra ver ao vivo.

Bandeiras, charangas, cantorias feitas pra animar o time querido e provocar a torcida adversária. Sujeito vendendo picolé na base do “quem não pediu, pida!”; pipoca em saco plástico, talvez desde a rodada passada; “aminduins” torrados ou cozidos, pode escolher; cerveja na cantina do estádio, lotada no intervalo e nem sempre gelada, ô cassete!

Um festa de confraternização em vários níveis. Total quando vai-se acompanhado de amigos ou filhos, com quem divide-se opiniões, júbilos, apreensões e “análises táticas”. Campo de futebol é bom de qualquer jeito mas certamente melhor quando acompanhado, embora não vá faltar a quem abraçar na hora do gol: aquele é o ponto de encontro de uma tribo que funde nas arquibancadas seus laços de comunhão e irmandade, desfeitos ao final da partida. Todos reconhecem-se irmãos e fundamentais para a produção daquelas poderosas ondas de fervor, uma espécie de Jihad futebolística.

Emoções trepidantes, nascidas aos poucos, com o avançar do time rumo às redes adversárias. Catarse ali tem nome de gol.

Fui menino na Bahia assistindo o Vitória levar pau do Bahia ano sim e no outro também. Acho que veio daí o pendor pra nadar contra a maré. Inexplicavelmente não desisti do velho rubro-negro baiano e até hoje acompanho-o onde quer que ele ou eu estejamos. Mais que recusar-me à desistência, inoculei em Gabriel, Arthur e Fernanda –meus filhos- o vírus dessa profissão de fé, estóica tantas vezes, que é torcer pelo Vitória.

Deram mais sorte do que eu, cresceram vendo o que continua acontecendo, o Vitória humilhando o Bahia em anos pares e ímpares. Bem feito!

É uma lástima ver a agonia do Bahia. Sério, não falo pra tripudiar dessa lenda em vias de extinção, não chuto cachorro morto. Falo por respeito à sua majestosa torcida e aos meninos que hoje vêem seu time se dismilinguir e que talvez não tenham a oportunidade de vê-lo forte e campeão, como seus pais viram e eu também vi, pra minha tristeza.

Em cada estado há sempre o time do povão, o time que melhor traduz com suas cores e história a alma de um povo, embalando-o em glória. Corinthians em São Paulo, Flamengo no Rio, Grêmio no Rio Grande do Sul, Atlético em Minas e por aí vai.

Ao Bahia quis o destino dar essa missão e caminha pra 20 anos que ele a renega, deixando órfãos milhões de baianos que incendiavam a Fonte Nova com seus gritos de guerra, certos de que no campo um time ia ser sacudido em seus brios e um outro iria tremer. A torcida ainda está lá, berrando feito louca, agora inutilmente. Nem seu maravilhoso hino consegue ressuscitar os dias de glória, virou motivo de piada a renovação anual do elenco tricolor, quando troca-se um time inteirinho de pernas-de-pau por um de cabeças-de-bagre, uma judiação...

Foram-se os tempos de exaltação e sucessivos triunfos. Melhor pra gloriosa torcida rubro-negra. Pior para o futebol da Bahia e para “a minha cara e minha nobre família baiana”, como dizia um radialista na época em que torcer pelo Bahia, gostar de mulher e de mocotó com cerveja gelada era quase tudo que um baiano precisava para ser feliz.

Hoje é diferente. Quer ver? ouça o depoimento de um sofrido torcedor tricolor a uma rádio baiana, em 2006. Sinto tanta pena...

Beijos, fui!

7 comentários:

Marcio Melo disse...

Esse 'depoimento' aos prantos do torcedor do bahia é muito cômico.

Vamos ver se o Vitória esse ano se arruma e volta a nos dar as alegrias de um passado bem recente!

paulo galo disse...

O problema, marcinho, não parece ser voltar pra série A. Isso eu acho que o Vitória consegue, na boa. Desafio mesmo é permanecer lá, o que tb é possível, vamos combinar, veja o exemplo do Goiás.

Marcia disse...

Paulinho,

Concordo em número, genero, grau e cores com vc.. Do estádio só algo ruim a se falar: a falta de replay..
Putz, qtas vezes me distrai olhando a torcida, as reações e zas...perdi o gol...

Marcus Gusmão disse...

Galo: eu juro que coloquei um comentário aqui há uns três dias. Vou tentar repetir: Sou Bahia, acho Mainardi engraçado, acabei de comprar um livro de Reinaldo Azevedo (Contra o Contransenso), vou votar em Serra pra presidente e gosto muito do Blog do Galinho. É ou não é uma bela declaração de amizade?

paulo galo disse...

Marcia: dia há de chegar em que a os estádios de futebol do Brasil terão aqueles telões gigantes, a nos mostrar em replay o gol que não vimos porque o miserável do cara do picolé "estacionou" na nossa frente pra atender o cara sentado logo atrás.

Gusmão: é sim uma belíssima declaração de amizade, sinto-me lisonjeado. E uma prova irrefutável que sanidade mental e generosidade não precisam andar juntas!

Sílvia Carrasco Braga disse...

É caro amigo, assim como vc passou o "vírus" pros teus filhos meu pai passou pra mim tb, so que o vírus do Bahia... Grito, xingo, torço feito uma louca e nos último tempos sofro tb... é horrivel ver o povo chamando teu time de "Jaía"...
Mas acho q mto do brilho do time se perdeupor culpaa da diretoria... Sr. Paulo Maracajá e Marcelo Guimaraes so pensaram no proprio bolso e esqueceram do revitlizar o time... Fazer o q cidadão???
Sou a favor da campanha, 'Devolva meu Bahia', e tento acreditar no hino... "Vamos conquistar mas um tempo... Ouve essa voz q eh teu alento... Bahia!!! Bahia!! Bahia!!!"

paulo galo disse...

Silvinha,

Ouvi dizer que o muitos dos que participaram da campanha "Devolva Meu Bahia", vencidos pelo desalento organizaram um novo movimento chamado "Fique com Sua Porra!".
É duro mesmo ver o Bahia agonizar desse jeito. E olha que eu me sinto no crédito da vingança desportiva, por tanto ter visto o Vitória ser humilhado nos anos 70 e 80.
Resista, minha cara. Paixão clubística não é o grande ato de nossas vidas. Vc é jovem, talentosa e merece todas as chances de ser feliz.
Mas, por favor, gatinha, saia dessa lama!