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domingo, 15 de julho de 2007

A BAHIA E A MORTE DE ACM


Aproxima-se o fim de Antônio Carlos Magalhães. São óbvios os sinais de falência múltipla dos órgãos do velho senador, a anunciar sua morte antes de completar 80 anos.

Não vou comemorar a morte desse velho cacique da política da Bahia e do Brasil. Não comemoro a morte de quem quer que seja, por pior que tenha sido sua obra. Deve-se respeito à sua família e aos milhões de baianos que chancelaram seu nome para o governo da Bahia e para o senado brasileiro.

Com seu falecimento, inicia-se o trabalho de canonização nas redações baianas , liderado pela TV Bahia. Emoção a serviço de um estilo de gerir a coisa pública que resistirá ainda por muito tempo, após o sepultamento de Toinho Malvadeza. Ele deixa herdeiros.

Antônio Carlos Magalhães foi a um só tempo o pior e o melhor que a Bahia produziu. Um realizador, notável em sua capacidade de dar asas às decisões tomadas, principalmente às que construíram sua fortuna e influência.

Liderou com mãos de ferro um grupo que dominou os destinos da Bahia por quase quatro décadas, com breves e muitas vezes desatrosos hiatos –como no governo Waldir Pires / Nilo Coelho. Puniu exemplarmente e de forma pública os que se beneficiaram de seu guarda-chuva e um dia ousaram rebelar-se.

ACM foi a síntese do comando arrogante, autoritário. O exato oposto da finesse Iorubá, pródiga no terreno do respeito e da interlocução reverente mas altiva. Fracassou no desenvolvimento da Bahia, que ainda ostenta os piores índices sociais do Brasil, atrás apenas de estados como o Piauí e Alagoas.

Fez fortuna ao praticar um dos mais eloqüentes exemplos de patrimonialismo do estado, no dizer de Raymundo Faoro. Fez privada a coisa pública e com seu exemplo permitiu que seus auxiliares assim o fizessem também, em menores escalas.

Foi xerife da ditadura militar desde a primeira hora e só desembarcou da canoa quando farejou a mudança dos ventos. O episódio das bravatas contra o então ministro da Aeronáutica do governo Figueiredo, Délio Jardim de Matos, marca o início dos melhores anos vividos por ACM e sua entourage.

Fez-se Ministro das Comunicações do governo Sarney e protagonizou o maior escândalo da história da república brasileira ao distribuir, como moeda política, concessões públicas de rádio e televisão. Foi amplamente beneficiado com isso ao assumir o sinal da TV Globo na Bahia. Como sempre por meio de seus laranjas –familiares ou não. À semelhança do fez com a construtora OAS.


Adversário cruel, esmagou setores da imprensa baiana como o Jornal da Bahia e opositores políticos. Lídice da Mata, ex-prefeita de Salvador, foi talvez o mais claro exemplo de como destruir diariamente a imagem de um governo democraticamente eleito, servindo-se de seus poderosos meios de comunicação. Perseguiu implacavelmente seus inimigos, não dando-lhes um único instante de trégua. Disseminou a truculência como modelo de gestão e o populismo clientelista como sustentáculo político.

A Bahia lamentará a morte do seu mais importante personagem político desde Otávio Mangabeira. E seus seguidores não perderão a chance colocarem-se como viúvas inconsoláveis e abnegados herdeiros da “luta” por uma Bahia “feliz”, tão amada que foi pelo “Cabeça Branca”.

Passada a comoção meticulosamente estimulada pelas redações baianas, rogo a Exu que leve seu melhor filho para os caminhos que construiu. E com ele uma página de horror travestida de “amor pela Bahia e pelos baianos”, como apregoou por tantos anos.

Ao som dos atabaques, a velha Bahia se despedirá de seu coronel. Passado a Axexê, contudo, esses mesmos atabaques poderão soar alegremente para saudar o início de um tempo onde a tolerância e o respeito convivam com a luta de idéias, emoldurando um tempo de paz e prosperidade para o sofrido povo baiano.

Laroiê, Exu. A Bahia te devolverá em pouco tempo aquele que honrou suas contradições e sua capacidade de realizar. Leve-o com o vento e volte pra ajudar o povo da Bahia a cumprir seu destino de ser, finalmente, feliz. Sem truculência. Sem malvadezas.

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