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terça-feira, 26 de junho de 2007

SOBÁ E SAUDADE


Escreveu-me Sylvia Toscano, prima querida de Campo Grande-MS, pra avisar que não sabia bem aonde havia sido inaugurada uma sobaria em São Paulo (já achei, Duda, é aqui). No exato instante em que tentava alinhavar um texto sobre aquele lugar e suas delicadezas.

O sobá tem como base um macarrão feito artesanalmente e um caldo especial que obriga o indivíduo a comer em uma cumbuca. O prato ainda leva omelete cortado em tirinhas, um bocado de cebolinha e carne de porco bem frita. Joga-se shoyo a gosto ou pedacinhos de gengibre. É bom pra dedéu!

O gosto dessa iguaria típica dos japoneses de Okinawa, que praquelas bandas imigraram no começo do século passado, me veio à boca. E com ele os retratos de um Brasil que o Brasil do litoral não conhece. E que é vertiginosamente saboroso.

Morei em Campo Grande por quase dois anos, tempo suficiente pra entender as razões da saudade recorrente do meu pai, nascido lá há quase 70 anos. O centro-oeste do Brasil dá dois espetáculos por dia, ao amanhecer e ao entardecer. Não conheci mais belos.




Mato Grosso do Sul, tornado estado da federação em 1977, foi feito de uma miscigenação muito particular de brancos vindos de Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul. Por lá juntaram-se aos nordestinos, paraguaios e índios. Deu num povo bonito, só se vendo. Contribuíram também os italianos, portugueses, espanhóis, povos árabes e do leste europeu.

Dos paulistas e mineiros veio o gosto pela viola e a elegância da cultura caipira; dos gaúchos, a devoção pelo churrasco e pelo vaneirão; do Paraguai, os sons das polcas, chamamés, guarânias e o gosto pelo tereré, erva mateira bebida em cuia de gaúcho com água gelada; dos descendentes Okinawas o sobá, marca registrada da culinária sul-matogrossense em que tanto me esbaldei na Feira Central de Campo Grande, charmosíssima desde o tempo em que era montada para brilhar na rua, em noites de quarta e sábado.

De alguns anos pra cá a feirona ganhou um galpão no centro, onde alguns saudosista campograndenses ainda fazem bico pela mudança mas freqüentam, ávidos de sobá, espetinhos de carne com mandioca e cerveja gelada; dos índios, chamados com mal disfarçado preconceito de bugres, a intimidade com a natureza e a onipresença do milho e da mandioca nas panelas das casas.




Campo Grande é a síntese urbana da estética country que predomina nesse estado voltado para a agricultura e para a criação de gado em larga escala. È de lá o maior rebanho bovino do Brasil, mais gado do que gente. Almir Sater e Manoel de Barros seguem sendo as mais sofisticadas traduções daquelas paisagens, seus bichos e sua gente.

Foi lá que me desfiz dos últimos preconceitos musicais, acrescendo o pop caipira de Leandro e Leonardo, Chitãozinho e Xororó, Zezé e Luciano entre outros, ao som chique de Renato Teixeira, Almir Sater, Sergio Reis. Quando entendi que naquela panela cabia de tudo e que de quebra dava pra manter a moça bem apertadinha nos bailes, relaxei e gozei muito.


Ninguém escapa de ficar chapado diante do Pantanal e da região de Bonito. O majestoso rio Paraguai, que divide Corumbá, na fronteira com a Bolívia, convida pra pesca, para o silêncio, para a reflexão com olhar posto na vastidão. Lugar bom pra se ouvir os murmúrios do coração.

Pessoas queridas, uma cultura plural e única no Brasil, um bioma exuberante. A ausência de Mato Grosso do Sul às vezes dói e custa resistir à vontade de seguir pra lá sem planejar nada, como fiz ano passado durante o carnaval. 1000 km de carro entre São Paulo a Campo Grande, só pra rever gente importante, que tanto me ofereceu em afeto e apoio quando por lá cheguei, em 1996. Gostosas dívidas de gratidão, pretendo saldá-las em suaves parcelas nas próximas décadas, sempre que a saudade apertar, cobrando presença.

Nos intervalos, cresce a nova geração de campograndenses. Linda, como essa gostosura aí de baixo, que tem nome de cantora e vai crescer comendo carne com mandioca e tomando tereré. Com muito sobá em noites de feira, né Ellis?



É isso, volto depois porque agora vou tocar meu berrante e ouvir Mercedita.

Fui.

2 comentários:

Marcus Gusmão disse...

Você foi. Tá certo. E não vai voltar mais não é????

paulo galo disse...

tô no olho de um furacão, broder gusmão. sequer imagino como estarão dispostas as coisas quando a brisa voltar a soprar. só sei que o "voltar" pode ganhar um sentido muito profundo quando tudo isso acabar. quem sabe signifique "recomeçar"?