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domingo, 24 de junho de 2007

A SIMPLICIDADE, POR FERNANDO FARO


Comemora-se em 2007 três aniversários emblemáticos.

O arquiteto Oscar Niemeyer e atriz Dercy Gonçaves completam 100 anos; Fernando Faro, 80. A unir-lhes, além da idade avançada, o fato de continuarem em plena atividade.

Sobre o baixinho Faro, a TV Cultura de São Paulo não deixou que a data passasse em brancas nuvens. Desde quinta última é quase impossível passar uma hora sem ver algo sobre a obra do criador e ainda produtor e diretor do clássico programa Ensaio, que desde o início dos anos setenta leva para a tela da TV a fina flor da MPB, num formato único de diálogo em que a voz do entrevistador não é ouvida, suas perguntas são intuídas pelo telespectador.

De resto, completo despojamento de recursos cênicos na apresentação do artista e sua obra. Simplicidade levada ao estado da arte, foco total no objeto.

Impressiona a defesa de Faro por seu formato televisivo ao longo de quase quarenta anos. Uma fórmula mágica que fez desfilar na tela da Cultura todos os grandes nomes da música brasileira. Consagrados ou ainda não mas invariavelmente talentosos. Nenhuma concessão aos interesses comerciais das gravadoras e das emissoras de rádio ou TV comerciais. Apenas música de alta qualidade.

Duas coisa provocam ereção das minhas antenas na história de Fernando Faro. Uma é a própria história do cara, que criou um formato único na estética televisiva e se fez profundamente respeitado por músicos e intérpretes ao longo de muitas décadas. É notável como mostram-se à vontade os que por lá passaram. Notório o respeito pelo criador do programa, sujeito reconhecido pela intimidade com o meio. Enfim, senhor absoluto do seu espaço.

A segunda coisa é vê-lo em ação aos 80 anos com a mesma simplicidade firme de sempre. Nada que transpareça arrogância ou falsa modéstia. Um exemplo de dignidade e talento. E no caso da TV Cultura, uma mostra eloqüente da importância das TV’s não focadas no lucro mas na produção de conteúdos educativos e de alto valor estético.

A notícia da criação de uma TV Pública pelo governo federal me enche de esperanças de que finalmente haverá uma coordenação eficaz entre as emissoras públicas ou estatais de todos o país, propiciando a geração de conteúdos plurais, na medida das contribuições regionais, e singulares pelo compromisso estético acima dos interesses comerciais. Missão a cargo de Franklin Martins, que tenha muito boa sorte e seja feliz na luta de termos no Brasil um exemplo bem sucedido de TV pública como os ingleses têm com a BBC.

Sou fã de carteirinha de Fernando Faro. E cada vez mais fã de uma simplicidade que não conquistei e que a cada dia é mais difícil viver sem tê-la.

Confesso um certo cansaço pelo espetacular, pelo efervescente. Pena que me faltou méritos para que a essa altura da vida pudesse mudar-me pra Mutá e de lá viver o extraordinário show das marés e dos caranguejos do litoral baiano.

Não adquiri créditos para isso até esse ponto da vida, paciência. Mas o jogo não terminou e persistir talvez seja a única qualidade que tenho orgulho em ver no espelho, sem a menor preocupação de parecer tolo.

A esperança em seguir de volta para Mutá não foi sepultada. Nem a de levar comigo a amada companheira, cujo rosto e paradeiro desconheço.

Se créditos me faltaram até aqui para a realização de ambos os sonhos, moram em mim as sementes necessárias para que um dia isso aconteça e que seja bom e simples.

Como o sonho real do baixinho Faro e seu Ensaio.

É isso. Foto lá de cima é do mestre Faro; vídeo aí debaixo é Elis no “Ensaio”, 1973.

Inté a próxima.

2 comentários:

Marcus Gusmão disse...

Vi na TVE uma matéria sobre Faro mas não o suficiente para saber que o cara criou aquele modelo do Ensaio. Sempre achei fantástica a idéia de "apagar a pergunta". É interessante também o plano bem próximo, que muitas vezes só capta parte do rosto. Vale a pena rever todos. São documentos fantásticos.

paulo galo disse...

faro é fera, se me perdoa o trocadilho infame, marcão. os planos que ele usa defendem o conceito de foco absoluto no intérprete, nos músicos e seus instrumentos. um formato único na televisão mundial, comoventemente simples e bem resolvido.