POR OUTRO LADO...

quinta-feira, 7 de junho de 2007

PAI ESCREVE



No 19 do mês passado publiquei aqui uma homenagem à Leonan Mantero Toscano de Britto, velho guerreiro que completará 70 anos intensamente vividos, em setembro próximo.

Fiz isso por dois motivos. Primeiro porque nunca é tarde para se dizer eu te amo para um pai e isso nos fez muito felizes, a mim e a ele; segundo, pra lembrar a quem quer que não tenha ainda ajustado suas contas com seus pais que ninguém escapa ileso de rancores pastoreados contra eles. Parece piegas mas não é não. É mais gostoso e bem mais barato pôr de lado qualquer orgulho babaca e abraçar pai e mãe do que pagar prum terapeuta um grana fabulosa, que no final das contas vai te mostrar que essas pessoas são essenciais para o seu equilíbrio etc etc etc.

Deus me livre. Tenho pai e mãe vivos e adorei escrever pra eles aos 44 anos de idade, três filhos e dois netos depois para agradecer o que fizeram por mim. Vai por mim, isso faz um bem que você não imagina.

Pedro, meu irmão do segundo casamento dele com Mirza, mandou-me um e-mail essa semana anexando uma carta que meu pai me escrevera, pedindo que fosse publicada. Li feliz e publico, sim senhor, com todo o prazer.

Quem sou eu pra recusar um pedido de quem me ensinou a gostar de mulher, futebol e mocotó com cerveja gelada, que é quase tudo que um homem precisa pra ser feliz?

Não alterei uma vírgula. Nem a passagem do Drummond, que ele detesta e eu tenho todos os livros. Obrigado mais uma vez, a tela é toda sua, Chevolé!

"Querido filho Paulo, ou Paulinho, ou Pacatá.

Felicidades.

Confesso que me emocionou o BLOG. Viva ao Google, ao Wikipédia e o Youtube, que não sei quem são, mas o contexto e as recordações são válidas.

Quando se jura com os pés juntos, são os dois, isso só não faz o Saci-pererê.

Também as minhas reminiscências com vocês pequenos são de cálido prazer; você citou um tal de Mino Carta, mas o Drummond é um chato. Não sei porque tanto aplaudem esse idiota. “No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho, nunca me esquecerei desse acontecimento na retina de minhas vistas fatigadas” (repete-se a mesma besteira).

Você lembra passagens, idas e vividas que me são agradáveis. Vocês pequenos: Moacir com 15 anos, André com 13, Paulo com 7, Volney com 5 e Ionan com 2. É bom lembrar que compramos a casinha de Mutá em 1970, fomos todos muito felizes, apesar da singeleza do lugar; você conversando com os nativos que “jogava capoeira na nação de Angola” e ainda “dançava Maculelê”, Volney convidando o amigo “Mandinho” para que à noite fossem caçar jegues e o “Nan”, branquinho e cheiroso, andava de braço em braço das mulheres e das meninas da cidade e me apavorava quando ele passava por baixo de jegues.

Mutá é singular, pois é uma pequena ilha que, quando com a maré baixa é continente na contra-costa da Baia de Todos os Santos.

Lembro-me com saudades dos nativos e dos veranistas, cito alguns: seu Zeca (José Dias) comerciante, Mandinho, seu Lancha, seu Edgar, Bacurinha, Vavá (o meu amigo de sempre e colega de pescaria, com linha de fundo no canal do Jaguaripe), seu Alípio, seu Delmiro, Filhinha, Dina, das Dores (minha comadre) e seus filhos Cleômenes ou André Luis, Airton e outros. Veranistas – seu Nelson, Nelsinho, Bárbara e as irmãs, Nestor e suas filhas lindas, a prima Maria Lúcia Toscano de Britto, seu marido, dr. Edson e suas filhas Rosário e Lulu.

Já se passaram várias décadas e muitos já foram chamados por Deus e não estão mais conosco.

A recordação do nosso convívio, quer fosse na praia em Dias D’ávila, no futebol, são também para mim inesquecíveis.

Me lembro que você me contava que o Gabriel, inconsolável e quase carregado em razão de outra derrota do Vitória, e você se surpreendeu dizendo a ele as mesmas palavras que eu dizia para você em caso semelhante do passado: “é isso mesmo filho. As vezes a gente perde, em outras ocasiões se ganha”, o que Gabriel respondeu com a sagacidade dele próprio: “mas meu pai, acontece que a gente (o Vitória) só perde...”.

Isso foi no antigamente, porque o nosso Vitória só ganha.

Os Opalas –esse que aparece na foto– é idêntico ao que primeiro tive: estofamento bege, quatro cilindros, quatro portas, luxo, feito em fins de 1968, série 1969, foi o número 240 a ser feito pela fábrica e o 5º a entrar na Bahia. Tive outros, azul, verde, branco, um superluxo vermelho, além das várias Veraneios. O que entrou em Mutá era 4100 cilindradas dourado, lindo, foi festa na cidade com foguetório. Atravessei o que chama ali de “apicum” – viveiro de caranguejos. Nessa aventura, quando o carro atolava, o povo o carregava.

Bons e saudosos tempos.

Seu pai."

Um comentário:

Marcus Gusmão disse...

Privilégio este seu, Paulo. Parabéns seu Leonan pelo belo texto e pela sinceridade de dizer que não gosta do poeta. Eu gosto e prefiro o Bahia. Que diferença faz isso? Nenhuma. A cada dia busco mais as pessoas por razões intuitivas e deixo cada vez mais de lado gostos e preferências políticas, ideológicas e até estéticas. Enfim, é sempre bom ver pai e filho conversando.Continuem.