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quarta-feira, 20 de junho de 2007

COMPUTADORES NÃO ESQUECEM


Dia desses li uma reflexão algo aflita de Kátia Borges, autora do blog Madame K, acerca da exposição pessoal demandada por esse tipo de veículo. O desabafo estava revestido de outras inquietações, que ao se verem objetos da solidariedade e do carinho dos leitores dela –eu, inclusive- foram aparentemente enquadrados na rubrica “crise existencial neoblogueira” e afastados da cena. Segue a talentosa Kátia a gotejar delícias no seu púpito eletrônico. Que bom.

Mas nem de longe isso que aconteceu com ela foi um caso isolado. Estamos presenciando um autêntico rito de passagem na comunicação humana. O formato blockbuster dos jornais, TV’s, rádios e portais de internet já está convivendo com a pulverização de opiniões pessoais desencadeadas pela interatividade da WEB 2.0.

Blogs, videologs, fotologs, podcasts. São muitas as ferramentas que tornaram visíveis as expressões pessoais em banda larga de milhões de pessoas, que individualmente pouco representam em audiência absoluta, se comparados até mesmo com os grandes blogs temáticos, como o do Noblat (política) e o do Nassif (economia), pra falar só de dois exemplos.

A questão é que se essa capilaridade, se tomada por suas expressões individuais pouco fazem frente aos megaveículos de informação, juntas mostram-se poderosíssimas por seu poder de multiplicação de opiniões. Nunca a informação, a análise e a opinião foram tão democratizados como são agora e cada vez mais serão no futuro.

Nesse contexto, ferve pela blogosfera a discussão da exposição pessoal. Ora pelo viés de como isso pode ou não ser legal para a fidelização da audiência e seu impacto na política de monetização do blog; ora pelo incômdo pessoal de permirir-se ser devassado por pessoas anônimas, o que pode gerar conseqüências se não necessariamente ruins, certamente imprevisíveis.

Tudo é muito recente nesse campo, é quase impossível prever a correlação entre as possibilidades tecnológicas e o impacto comportamental desse fenômeno. A única certeza é que deixamos marcas cada vez mais nítidas por onde passamos, mesmo pra quem não publica um blog. Basta um cartão de crédito, uma conta de e-mail, acessos mais ou menos regulares ao Youtube, ao Flickr, à Wikipédia e principalmente ao oráculo do Google –pronto, você está habilitado a ter sua vida reconstruída pelos neoarqueólogos e neoantropólogos daqui a alguns anos. Ficou tudo lá registrado nos poderosíssimos computadores desses serviços. O Big Brother tá de olho em você, meu camarada...

Sou cada vez mais fiissurado por esse admirável mundo novo. A ilusão da onisciência e da onipresença me embriaga, devo confessar. Isso é muito parecido com o mito de Deus e certamente essa discussão, que já alimenta fervorosos debates acadêmicos, vai ser ampliada nos próximos meses. Todos os acervos técnicos, artísticos e científicos estão a um clique e poderão servir à inclusão social. Ou a um incrível apartheid entre plugados e desplugados.

A alma incauta de muitos blogueiros também faz parte dessa devassidão eletrônica. Por enquanto, tento ficar atento aos limites que me parecem sensatos em relação à exposição pessoal, o que não é um exercício fácil para quem bloga. O cunho pessoal, a percepção do leitor quanto à singularidade do que lê é essencial para que justifique-se a continuidade da publicação de um blog. Acontece que nem tudo o que acontece na vida do blogueiro vale compartilhamento, mesmo tendo-se em vista que as pessoas dedicam um tempo enorme pra tomar conhecimento da vida alheia. Os riscos, se não claros ainda, são todos de quem publica.

Esse lance tá rolando forte e rápido por aí. Só sei que me dá calafrios em imaginar que uma troca de correspondências eletrônicas com a mulher amada, por exemplo, está guardadinha num supercomputador qualquer. Fascina mas aflige.

Nem quero imaginar como isso vai ser inserido na geopolítica mundial daqui a alguns anos. São reais os riscos de crises diplomáticas e militares pelo poder da informação, do mesmo jeito que hoje cidades são impiedosamente bombardeadas pelo controle do petróleo?

É isso. Aí embaixo uma música composta por Gilberto Gil há poucos dias e postada no Youtube no último domingo. Vai ser adequado assim no raio que o parta; tema e título é Banda Larga! É o velho Gil provando que suas antenas continuam em plena atividade.

Na qualidade de deus me despeço. E como mortalzinho de merda deixo beijos pra quem chegar por aqui pra dar uma boa xeretada.

Fui, inté.

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