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segunda-feira, 18 de junho de 2007

COISA DE BAIANO ll: OS POLÍTICOS



Os baianos acreditam piamente que não têm sotaque. Os cariocas também.

Coincidentemente falamos das duas culturas regionais mais autoreferentes do Brasil. Povos que mantém seus olhos apaixonadamente voltados para si, reconhecem-se lindos diante de seu espelho cultural e geográfico. E simplesmente não são capazes de se ver de fora pra dentro.

Quem vê, sente-se tentado a classificar o comportamento como provinciano. Mas quem já viajou bastante reconhece tolerantemente a singularidade desses lugares e releva o discurso narcísico. Às vezes é chato, concordo. Mas é preço baixo diante das possibilidades culturais apresentadas com tamanho fervor e orgulho.

No caso da Bahia, esse foi o caldo cultural inteligentemente cooptado por políticos e publicitários para vender o produto “Bahia, terra de gente pobre mas feliz”. Há décadas o discurso hedonista anima a venda de produtos, serviços e projetos de poder na Bahia. A tal ponto que a indústria do entretenimento, fortemente calçada no carnaval, acabou por introjetar na sociedade baiana um comportamento maníaco, como bem observou Antônio Risério no seu História da Cidade da Bahia. Tudo é uma festa, a escamotear a miséria urbana de Salvador, que vai ganhar uns trocados quando o verão chegar.

É como ouvir o Maluf dizendo que “São Paulo é a locomotiva do Brasil”. Me dá a mesma angústia quando leio algo como “Bahia, terra da magia”. Nem uma coisa nem outra são falsas: Bahia rima mesmo com magia e alegria, o lugar respira mistério e savoir faire. E São Paulo responde por 1/3 do PIB brasileiro. Tudo certo, portanto.

Tudo certo? Certo é o cassete! A Bahia tem indicadores sociais entre os piores do Brasil e seu povo, verdadeiramente majestoso na sua cultura, não é conduzido a sair da armadilha das festas para participar de um projeto de desenvolvimento consistente. Tá puxando as cordas do Chiclete com Banana e avançando no meio da multidão durante o carnaval gritando “Ó o gêlo!”.

Jacy Sande, consultora desse blog desde que ele nasceu, discorda disso. E não discorda sozinha, muitos da classe média baiana lhe fazem coro ao apontar que isso tudo é conseqüência, preponderantemente, do desequilíbrio regional no Brasil. Não consigo praticar essa indulgência toda com os que estiveram no poder nos últimos 30, 40 anos. Por mais que seja esse um argumento razoável e explique um bom pedaço da história.

Foram irresponsáveis e incompetentes, pra dizer pouco. Nunca habilitaram aquela terra a desenvolver suas enormes possibilidades econômicas com políticas públicas sérias voltadas para a educação, a saúde e a implantação de uma indústria de transformação robusta. Pouco ou nada fizeram pela agricultura familiar e pela infraestrutura. Mas o laço de fita ficou uma beleza, embalado com muito samba-reggae, ô iô iô...

Tenho esperanças que Jacques Wagner e o próximo prefeito mudem esse eixo de festa na favela e traduzam em apoio financeiro seus laços políticos com o governo federal. A festa pode e deve continuar, é da natureza de um povo que aprendeu a sorrir de suas dificuldades. E sabe festejar como nenhum outro do planeta sabe.

Só não dá mais é pra achar que aquele lugar será próspero vendendo picolé da Capelinha e admitindo a perpetuação de uma forma de governar em que tudo muda pra ficar do mesmo jeito, como tem sido a experiência de João Henrique na prefeitura e espero não vir a ser a de Wagner no governo do estado.

Nesse compasso de espera pelo fim das desigualdades regionais, não tem orixá que salve a Bahia, a terra da alegria. E da fantasia.

É isso. Fui, mas amanhã eu volto.

7 comentários:

Jacy disse...

Paulo, minha discordância não se baseia neste discutido e antigo conceito de desigualdades regionais. O que entendo é os problemas que você pontua têm uma natureza estrutural, da qual nenhuma “boa vontade” política pode dar conta, certo?

paulo galo disse...

Jacy,
Querendo vc tem espaço aberto para publicar aqui um texto para esclarecer um pouco essa questão. Confesso que continuo sem respostas pra me fazer entender como se dá esse fenômeno em que as gestões estaduais podem piorar a vida das pessoas mas não conseguem melhorá-las estruturalmente. O que explica isso? a natureza do pacto federativo, talvez?

Sílvia Carrasco Braga disse...

Oi! Já chego metendo o bedelho...rs
Concordo com tudo que vc falou e muito mais...
Eu costumo falar que Salvador morreu e esqueceram de enterrar, pq apesar de amar minha terra enão querer sair daqui por nada não vejo opções de crescimento profissional aqui... Alias não tem opção pra nda! Vc não tem opções de lazer, pra curtir algo diferente, o povo totalmente provinciano, qdo algo eh novidade 'bomba', depois de alguns meses, vai a falência...
E por ai vai nesse ciclo vicioso que se aplica em tudo...

P.S. - Vai desculpando a invasão ai...rs

Stress Girl disse...

Bom, concordo com o que disse no post, mas discordo com a Silvia, do comment anterior. Depois que saí de Salvador, percebo que em todo lugar eh a mesma coisa: Salvadro é uma provincia?? Ora, acho que so Sampa nao é. Desigualdade, desemprego, violência? Isso são indices do Brasil inteiro. Mas, só a Bahia que tem a benção dos Orixás. E de ACM. hehehe
Amei seu blog. Voltarei sempre!!
Beijos!

paulo galo disse...

Silvia: passei anos louco de vontade de ir embora da bahia pelos motivos que vc apontou. e há quase doze tento voltar. o que mudou? certamente não foi o esgotamento das possibilidades culturais de são paulo ou um súbito florescimento das expressões artísticas na bahia. apenas esgotou-se a vontade de beber cultura de gute-gute. tô louquinho pra comer mocotó com cerveja gelada na feira de são joaquim. talvez vc precise viver esse olhar estrangeiro pra voltar melhor sintonizada com a cidade. pelo menos pra mim foi assim que precisou acontecer. só não abro mão de vir à sampa vez em quando pra tomar um chopp no bar do léo e rever os museus. uma delícia sua passagem por aqui, seja sempre bem vinda, vc e seu bedelho rsrsrs. bjs

paulo galo disse...

exilada stress girl: cheguei no seu delicioso blog hoje, acho que pela repercussão do seu post no blog do julião. coincidentemente estou escrevendo alguns posts sobre a bahia e agora a pouco publiquei um sobre os dialetos, dando link pro seu post e recomendando o seu blog, felicíssima coincidência essa de encontrar vc, beautiful girl! e obrigado pelas palavras, chegaram numa hora em que eu não estou muito feliz com meus textos. um alento e tanto, vindo de uma blogueira talentosa como vc. beijos, essa minina!

Sílvia Carrasco Braga disse...

O pior galo é que foi justamente pq estive fora que tenho essa visão. Morei por quase 2 anos na Inglaterra. Qdoo tva la morria de vontade de voltar, hj morro de vontade de saair de nv...
Na verdade acho q o problemaa eh com o Brasil em geral... Depois de morar fora cheguei a conclusao q Brasil eh mto bom p/ passar ferias (de preferencia com pounds no bolso...rs)