POR OUTRO LADO...

sábado, 16 de junho de 2007

COISA DE BAIANO l: O TIMING


Dizem que os baianos são, arquetipicamente falando, lentos. Eu não acho.

É uma generalização preconceituosa, como qualquer generalização. O mesmo que dizer que fumar maconha faz mal à saúde. Ora, está mais que comprovado que fumar maconha causa apenas dois transtornos: prejudica a memória e um outro que não me lembro mais, esqueci.

Vivi em Salvador por mais de 20 anos e o máximo que me aproxima dessa lenda sobre a lentidão dos baianos é a suspeita de que eles têm em seu DNA a compreensão nagô de que o tempo nada mais é que a sucessão dos fatos, um só acontece após o fim do outro. O relógio organiza o mínimo indispensável na vida da cidade. Uma aparência de organização apenas tolerada, jamais adotada com fervor.

Daí que muitos paulistas ficam angustiados quando por lá chegam e dão de cara com um certo descompromisso com os horários que sublinha a convivência na cidade. Cuidado, quase tudo na Bahia vive para além das aparências, do mesmo jeito que Oyá atuava no papel de
Santa Bárbara.

Ou como na capoeira, arte de lutar fingindo que vai fazer uma coisa pra fazer outra. Diferentemente do caratê, que finge executar um golpe e o executa exatamente como fingiu, entendeu? O foco dos japas é a contundência e não a dissimulação
jêje-nagô.

Você marcou um almoço de negócios às 13h:00 e o sujeito chegou às 13h:40? Faça como a ministra, relaxe, goze e compreenda: o cara chegou atrasado porque teve que pegar os meninos na escola para depois disso ir ao seu encontro, capice? O que importa é que ele foi...

Herança iorubá, pode conferir. Não existe relógio em terreiro de candomblé. Vai colher as folhas na mata? é antes do sol nascer; vai começar o xirê? depois do padê de Exu, claro; arrumar o barracão pra festa? depois do ajeum, não sabe?

Tudo ganha um significado específico no tempo e no espaço quando se está em Salvador. Aqui em São Paulo marcamos na sexta um encontro às 10h:00 do sábado no Mercadão pra comer um sanduíche de mortadela, em frente ao Hocka Bar; quer chegar na Bela Cintra? “primeira à direita, terceira à esquerda, segunda à direita!”

Na Bahia não seria assim. Ficaria na base do “amanhã a gente se encontra depois das dez nas 7 Portas, certo?”. Em qual horário exatamente e em que ponto do mercado são detalhes nascidos pra aborrecer e confundir; pra chegar no Largo dos Aflitos? “meu irmão, siga nessa rua aqui toda a vida. Vá andando. Tem uma hora que vc vai ver um casarão pintado de vermelho, com um placa de um negócio de material de construção. Tem uma rua do lado, não entre não, continue. Lá na frente, do outro lado da rua...ó, quer saber, eu te levo lá!”

Se você tá pensando em morar na Bahia, comece agora a reduzir o ritmo. O timing dos baianos não é nem rápido nem lento: é próprio do lugar, só existe lá e parece lento. Os olhares costumam se cruzar alongando-se alguns segundos a mais. Vá devagar, quem olha rápido demais por aquelas bandas perde o show inteirinho. Manha de prêto, olhar mais detidamente...

Volto amanhã com mais digressões sobre a Bahia. Deixo aí em cima um óleo sobre madeira pintado em 1957 e intitulado "Baianas", de Hector Carybé, exemplo único de argentino com olhar baianíssimo; abaixo, Caetano Veloso, que junto com Bethânia virou orixá e não contou pra ninguém. Cantando as dores da cidade, que são muitas e antigas.

Vou nessa, esse assunto me deu uma preguiça...


6 comentários:

Leo Baiano disse...

Arquetipicamente falando, lentos é ótimo! rsrsrs, melhor ainda é saber que você não acha já estava pronto a te xingar aqui..rsrsrs

Creio que os paulistas iniciaram esse preconceito generalisado de que baiano é preguiçoso... já reparou que paulista gosta de fazer isso? Eita estou generalizando...rsrsrs

Deu um show de cultura baiana e afro heim painho...rsrsrs

Parabéns, agora que vi que morou aqui e que curti tanto essa terrinha abençoada por Deus é que fui entender porque outro dia se referiu a mim como sendo quase conterraneo teu.

Amplexos,

Leo Baiano.
www.blog.ljunior.com

paulo galo disse...

os novos baianos, aqueles que se deram bem na selva do sudeste brasileiro, grande Leo, são os que aprenderam a rir desse preconceito bobo e tirar vantagem dele...

Marcia disse...

Baiano não chega atrasado apenas pq teve coisas pra fazer antes, ele tem a CERTEZA que o outro também atrasará. Ou seja, se marcamos às 13h, já levamos em conta que o outro chegará às 13h40, ai aproveitamos para chegar às 14hs. É um pacto pré-estabelecido entre todos os baianos.

Sílvia Carrasco Braga disse...

Pior que tudo isso é qdo os desocupados (e invejosos) dos paulistas chamam burrice de baianada... Aí faz ferver o sangue tal qual acarajé no dendê...

paulo galo disse...

preconceito enche o saco de qualquer um, sivinha. mas, ó, já foi pior essa coisa de baianada por aqui viu? acho que nós os baianos estamos começando a levar esse assunto com a importância merecida, ou seja, levando na galhofa; porisso que nós, os paulistas, já não encontramos mais motivos de sacanear tanto os baianos...

Anônimo disse...

tem inveja mrm, pq nois fecha nessa porra no claro ou no escuroo ..