POR OUTRO LADO...

terça-feira, 19 de junho de 2007

COISA DE BAIANO III: O DIALETO


Se você pensa que na Bahia fala-se português, pensou errado. E errou de novo se achou que é o baianês.

Desde os tempos do Dicionário de Baianês, muito tem sido escrito sobre esse dialeto incompreensível para os que chegam de fora da Bahia e dão de cara com a cultura Brau. Sim, na Bahia fala-se Braulês, sabia não, meu rei?

O braulês é o dialeto usado pelo braus, pela população negra e pobre de Salvador. A mesma população que criou e preservou o candomblé, o samba de roda, o carnaval, as festas de largo, a culinária de senzala. Noutras palavras, os braus construíram quase tudo que os brancos embalaram pra vender.

Se você lembrar agora de uma coisa, qualquer coisa que te remeta à Bahia saiba que antes disso ser conhecido no resto do Brasil e no mundo já fazia parte do cotidiano desse povo absurdamente criativo.

A expressão brau remonta os tempo do cabelo black power, dos Jackson Five e James Brown. Fins dos 60, começo dos 70, quando os negros começaram a abandonar as roupas de índio norte-americano pra se vestirem de negros afro-descendentes. O palco, claro, era o carnaval baiano e o Ilê Ayê foi o afoxé precursor nas ruas de uma movimentação que já estava rolando na Liberdade, bairro popular de Salvador, em torno da auto-estima negra.

De lá pra cá, a cultura negra ampliou fortemente sua hegemonia na sociedade baiana. O povo branco da classe média, historicamente de costas pras favelas da cidade, passou a curtir o suingue da patuléia e incorporou muitos dos seus elementos.

A universalização da cultura dos guetos baianos não parou mais de se dar desde então. Religião, música, dança – a Bahia começou a ser vendida pela produção cultural de sua gente negra e pobre mas riquíssima de informações e singularidade.

A língua é a porta mais facilmente perceptível dessa deliciosa contaminação. O português erudito teve que tolerar a convivência com o braulês, como a igreja católica aprendeu a sobreviver convivendo com o candomblé. Uma inundação de gírias e expressões que levaram o baianês às últimas consequências.

A entonação continuou a mesma, decrescente. Mas o vocabulário, quanta diferença...

O negócio ficou engraçado. Em todas as classes sociais ouve-se as expressões que são usadas no Curuzú e no subúrbio ferroviário de Salvador. Por exemplo, o assassinato da letra “d” no gerúndio. Se na cidade de São Paulo o gerúndio ganhou uma letra “i” que não existia (comeindo, fudeindo, dizeindo), na Bahia fala-se cumeno, fudeno e dizeno. O "d" foi pro espaço...

Há muito o que se registrar nesse campo. Vou recortar a intenção aqui pra sublinhar apenas mais um aspecto que gosto muito no falar da Bahia. Refere-se ao uso universal da palavra porra. Exemplos:

- Me dê essa porra aí, essa minina!
- Ó, não se saia não que eu lhe pico a porra, viu!
- Que porra é essa?
- Porra! (exclamando)
- Porra!! (xingando)
- Você não vai porra nenhuma pressa festa, sua nigrinha.
- Êita porra!
- Volte aqui, sinhá porra!
- Esse acarajé ta gostoso coma a porra.
- Viu só que sujeito alto? Grande como a porra!
- Bela porra!
- Fique com sua porra, não quero mais não!

E vai por aí. Um exemplo que me parece sintetizar bem a diversidade de usos dessa palavra, que no sudeste é sinônimo de esperma, foi a que ouvi uma vez no Iguatemi de Salvador. Ia na minha frente, andando no mesmo sentido, um sujeito baixinho com uma daquelas “capangas”, carteiras grandes que se usavam debaixo do braço a uns 20 anos atrás.

Em sentido contrário, uma cara com pinta de atleta e gringo, mais de 2,00 de altura, forte pra cassete, cruzou com o baixinho e logo depois comigo. O baixinho virou-se espantado com ao tamanho do cara e ao cruzar o olhar comigo mandou essa, sorrindo:

-É a porra!

É isso. Quem quiser ler mais sobre o braulês, clique
aqui. Nele você vai ler um texto saborosíssimo de uma baiana que mora em Recife e publica um blog muito legal chamado Playground. Vale a pena conhecer véi, na moral...

Foto de lá de cima é do Fernando Vivas, boca de zero nove da fotografia baiana; no vídeo abaixo um registro raro de James Brown cantando Sex Machine, com um suingue virado na porra.

Vou tirar o corpo, bródi. Quem quiser ficar por aqui, é ninhuma, falou?

7 comentários:

Marcio Melo disse...

É isso mesmo hehehe. Só não concordei muito quando você 'disse' que é dialeto da população negra E pobre.

Acho que é predominante nas classes mais baixas (independente de cor), mesmo assim, uma boa parcela das classes mais altas fala exatamente desta forma 'man'.

Gostei do teu blog, vou visitar mais vezes.

paulo galo disse...

é uma honra sua visita por aqui, man. a casa é sua , flw?

Sílvia Carrasco Braga disse...

Também discordo qdo vc diz q eh um dialeto usado na população negra e pobre. Ser brau é um estilo de vida....hehehe
Esqueceu dos braus branquinhos e riquinhos que colocam seu carro rebaixado com neon em baixo, com um som, que geralmente vale mais que o carro, tocando o bom e vlho pagodão???

Marcus Gusmão disse...

ôrra meu!

Adeimal disse...

Porra véi do carai esse seu papo, falô? Na moral, achei porreta mesmo. Vô chegar... Tenho agora que ir pro trampo e se der mole vou pegar o buzu lotado.
Bjundas pra vc e todos ai!!!

Agdah disse...

E a pronúncia da palava não seria "ninhu-a", sem o "m"?

Anônimo disse...

Não é NIUMA mermo..