POR OUTRO LADO...

quarta-feira, 6 de junho de 2007

ANINHA E ARARIPE



Recebi aqui, pra minha satisfação, um comentário carinhoso e bem humorado do cineasta baiano Araripe Jr. Tá lá no post “Bravo!”, de 26 de maio. Não satisfeito com o gesto, transcreveu o artigo pro blog oficial do filme, veja aqui.

É curioso como certas coisas acontecem quando resolve-se blogar. No último domingo, a versão online do jornal A Tarde de Salvador publicou uma matéria sobre as dificuldades enfrentadas por outra guerreira da cena cultural baiana, Aninha Franco, pra manter vivo o Theatro XVlll, que completou 10 anos ali no Pelourinho.

Comentei isso com Marcus Vinicius, do blog
Licuri e na seqüência chega o Arara com a finesse própria do povo de Ilhéus, terra do meu vô.

Aí ficou irresistível alinhavar uma história e outra num post. Lá vou eu.

Meu primeiro contato com Aninha Franco -que também não conheço pessoalmente, como o Araripe- foi na época da morte do Cazuza. Jornalista talentosa e sensível, publicou uma matéria no Correio da Bahia que me fez chorar de tão bonita. Tenho-a guardada até hoje, virei fã da mulher.

Anos depois, entrei numa sala de bate-papo online –de novo em A Tarde- na qual discutia-se o Theatro XVlll e suas formas de sobrevivência. Aninha, na berlinda, levou porrada de tudo quanto é lado pelo fato de ter conseguido um patrocínio cultural da Souza Cruz, uma indústria que mata milhões de pessoas e bla blá blá. Uia!

Fiquei chocado com aquilo e escrevi um e-mail pra ela, oferecendo-lhe colo por tantas bobagens lidas. Na época eu era diretor comercial da Vadam, produtora do Mundial de Motovelocidade no Brasil e sabia o quanto era difícil e essencial obter verba de patrocínio de uma empresa daquele porte. A danada da Aninha conseguiu e, como se diz na Bahia, ainda teve que ouvir um monte de lera por causa disso. Ai meu Senhor do Bonfim...

Lembrei dessa história porque vocês, Arara e Aninha, agonizam a meu ver no mesmo abraço de fogo dos deuses, que assim demonstram o amor especial que têm por alguns de seus filhos. Não era isso mais ou menos que dizia o seu texto sobre o Cazuza, Ana?

Padecendo estóicamente da irregularidade ou mesmo da inexistência dos apoios públicos ou privados, realizam seus sonhos nadando contra a maré da cultura pop internacional, nacional e sua versão local, igualmente pasteurizada e embalada pro consumo irrefletido de grandes levas de pessoas, que lotaram as salas de cinema pra assistir o caricatíssimo "Ó Pai Ó!". Pagam caro por acreditar no poder da poesia.

Enfrentam, qual um exército de Brancaleone, as poderosas forças da indústria cultural hegemônica, apanhando também de alguns notáveis da intelligentsia baiana, há séculos contumaz em não realizar absolutamente nada por preguiça, mediocridade e falta de peito pra empreender mas laboriosa na crítica impiedosa ou maledicente dirigida a quem põe a cara pra bater e luta para realizar seus projetos.

Não me sinto no direito de pedir a vocês que resistam e sigam em frente. Façam-no se for-lhes permitido pelo prazer e pela vontade indomável de realizar com a qualidade que os moveu até aqui.

Mas saibam que enquanto alguns sorriem silenciosamente com a fraca bilheteria de “Esses Moços” ou com a penúria financeira do XVlll, outros tantos rogam aos deuses que lhes dêem a coragem de perseverar, mesmo se o desalento em algum momento falar alto em seus corações .

E que não lhes deixe faltar jamais a vontade de reinventarem-se, caminho obrigatório para quem quer se creditar a novas vitórias. Isso também é empreender.

Axé Arara, axé Aninha. Ogun os fortaleça com seu canto e sua espada, do jeitinho que taí em baixo, no vídeo.

Beijos pra quem chegar por aqui. Fui, inté!

Ah, pra quem não sabe, Odé (ou Oxóssi, sua qualidade mais conhecida) acompanha Ogun na ilustração de lá de cima porque são irmãos, junto com Exú. Senhores da luta, da fartura e dos caminhos.


2 comentários:

José disse...

O cinema é a arte da impossibilidade de fazê-lo.

Mas já tô pensando no próximo, como alguem que sai de um casamento sofrido, dizendo que não que mais se apaixonar e logo logo arranja outro amor. Pior ainda: como um rubro negro que vai para a terceira e diz que não quer saber de seu time e depois de duas semanas já tá com o radinho colado no ouvido...

Obrigado pela força!

abrc

Araripe

paulo galo disse...

A casa é sua, volte sempre e boa sorte!