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sábado, 19 de maio de 2007

O OPALA DO MEU PAI


Blogar é pesquisar muito, oras para intuir um tema, oras para melhor compreender um assunto já eleito, pronto pra ganhar vida com texto e imagem.

Tenho a impressão que seria impossível publicar um blog sem a existência do Google, da Wikipédia e do Youtube. Como só tenho 15 dias no ramo, não arrisco afirmá-lo. Mas que se essas ferramentas não existissem eu não teria nem começado, ah, isso eu juro de pé junto. A menos que eu tivesse as luzes de Drummond ou do Mino Carta pra escrever, o que definitivamente não é o caso.

Digo isso pra dar uma pista de como um vídeo disponível no Youtube pode evocar antigas reminiscências e mover um blogueiro instantaneamente para o encontro de si mesmo e daí pro post.

Como hoje, quando fui buscar nas lembranças da infância os momentos que vivi com meu pai. E lá vi como ele foi e continua sendo importante pra mim e o quanto do seu espírito inquieto, sonhador e fanfarrão povoa a minha alma.

Foi ele quem me ensinou a perseverar, a nunca desistir. Veio dele também um certo impulso de remar contra a maré, sem jamais me deixar amedrontar por isso. É dele também a informação transmitida na forma de compartilhamento de como é bom fazer passeios inesperados, surpreendentes. Ele fez isso muitas vezes com seus filhos e era muitíssimo bom andar ao sabor da curiosidade, ao lado dele. Ou simplesmente pôr a cabeça no seu peito.

Apaixonado pelas mulheres, guardei dele o mesmo sentido de encantamento pela alma delas. Um dos melhores aspectos de sua herança, senão o melhor, devo confessar. O gosto por mocotó e rabada devorados com cerveja gelada em botecos de higiene suspeitíssima ficou em mim também, obrigado.

Inteligência aguda, Leonan jamais conseguiria criar meninos medíocres, mesmo que o quisesse. Conviver com ele era sinônimo de raciocinar rápido e rir muito de suas palhaçadas.

- Tá muito rápido, fala mais devagar, pai!
- Tá bom, mas é só mais uma vez, hein? vamos lá: enfia o dedo no pé de simitode, vai lá em cima e deixa os copos pra voltar aqui primeiro. Entenderam?
- Peraí, enfia o dedo no quê?!
ENFIUDEDONOPEDESIMITODEVAILAENCIMADEIXAOSCOPOPRAVOLTAQUIPRIMEIRO!!-dizia rapidamente para o desespero e riso da filharada.

Foi com ele que assisti meu primeiro jogo de futebol num estádio. Fonte Nova, decisão do campeonato baiano de 1972. Saimos felizes da vida com os 3X1 que o Vitória enfiou no Bahia naquele dia. Nunca esqueci daquela tarde nem da figura dele dando risada na arquibancada.

Seria facílimo passar horas aqui contando "causos" daquele tempo. Mas vou me contentar em dizer apenas que me orgulho dos defeitos e das virtudes de sua alma, pai. Tenho por você amor e gratidão e lamento muito não ter lhe dito isso outras vezes.

Como ainda estamos vivos, não me faltará oportunidade de reparar a negligência e poder te dar um monte de beijos -se você fizer a barba antes, naturalmente.

Trouxe praqui um pequeno presente pra você. É um documentário feito pela General Motors em homenagem ao Opala, quando este estava saindo de linha em 1993. Uma história de sucesso que você ajudou a escrever e que não cansava de contar mesmo depois de muitos anos.

Que nem o povo de Mutá, que até hoje lembra de que foi o Opala do seu Leonan o primeiro carro que entrou lá, um feito épico num tempo em que não havia estrada praquelas bandas.

Saiba, Nan, que eu tenho muito orgulho de suas façanhas e de sua luta. Você é um vencedor, Pai. Ou melhor, Chevolé, como dizia seu Mamede Paes Mendonça.

Beijos, vou nessa, amanhã eu volto.


8 comentários:

Liliana disse...

Você está muito bonzinho. Você está querendo tirar 10.
Ou muda o rumo da conversa ou eu invado esse blog e faço misérias nele. Eu conto tudo. Eu sei o que você fez no verão passado.
Já para o fundão, queridão.

paulo galo disse...

meu deus, como é dura a vida dos homens sábios! passo toda minha existência sendo lembrado pelo instinto de provocação, pelo humor ácido e língua afiada. belo dia acordo e digo: vou publicar um blog e começar a fazer yoga. aí o mundo vem e me diz: caguei pra vc, preferia suas caneladas! ventos da noite, tenebrosos ventos! então tá, volta aqui amanhã à tarde, lindona! bjs

Marcia disse...

Paulinho, me emocionei com esse texto. Lembrei muito da minha mãe, e infelizmente não tive a chance de dizer isso a ela. Não consegui abri o video

paulo galo disse...

ajustar contas com pessoas tão essenciais como os pais não é fácil não, marcinha. é sofrido e chama por uma humildade que frequentemente não temos. pelo menos no meu caso é assim. mas parece que vale a pena sim, depois te conto os resultados: tem uma fila enorme de gente preu resolver antigas "pinimas". O Sarapatel tá cada dia melhor, hein mulher?! mandei nos meus links aqui, cê viu?

Jacy disse...

Agora ficou difícil voltar atrás. Já ligou pro velho???Ou foi só charminho de blogueiro??? Se não ligou, ligue agora. Esse "ainda estamos vivos" pode não durar muito. Vou sentir orgulho de vc!!!

paulo galo disse...

acabei de falar com ele via skype. ele tava muito emocionado e cansa do da diálise feita ontem à noite. foi bom pra nós dois, fiquei contente. uma abraço na boca, passarinho, volte sempre.

Soane disse...

Oi meu querido!
colocar as relações em ordem, começa com os pais, senão vai dar confusão pra frente.
beijos, te amo, e aí quando a ficha cair, vou ficar como minha amiga-rival...(k) muito orgulhosa de voce.

paulo galo disse...

ela subitamente esqueceu o orgulho declarado e ja tem outra opinião sobre esse ajuste de contas aqui. fazer o quê...