POR OUTRO LADO...

quarta-feira, 9 de maio de 2007

PUTA FRIO, MEU!


Alguma coisa acontece no meu coração quando o frio chega pra valer, com garoa ao meio-dia e o povo encapotado nas ruas e veículos. Gosto mais do frio do que do calor, principalmente do friozinho do outono quando o céu fica ineditamente azul, o que não foi o caso de hoje. Nem friozinho nem céu azul.

Cidade coberta de cinza e termômetros a 10 graus, resolvo ir a pé ao encontro de Cid Marcondes, com quem combinara almoçar. Caminhada gostosa de uns 30 minutos partindo de Pinheiros e passando pelo Hospital das Clínicas, av. dr. Arnaldo, Rua da Consolação, Rêgo Freitas até as proximidades do Largo do Arouche.

Adoro caminhar pelas ruas de São Paulo, particularmente pelo seu centro histórico. Bonito, imponente, agitado -o miolo da capital paulista fala muito dos hábitos de seu povo e da diversidade dos elementos culturais e econômicos que forjaram a cidade, tá tudo impregnado nos prédios, nos bares e cafés. Pessoas de todo o Brasil e do mundo a fizeram e ainda a fazem singular sob todos os aspectos.

Sessenta teatros, 400 salas de cinema, centenas de museus, espaços culturais e bibliotecas de ótima qualidade, parques bonitos e bem cuidados. Uma infinidade de restaurantes servindo o melhor da cozinha paquistanesa, indiana, mexicana, árabe, portuguesa, coreana e, lógico, italiana. Além das regionais: baiana, gaúcha, mineira, capixaba, paraense. Eventos culturais e esportivos que rolam o ano inteiro fazem de Sampa uma parada obrigatória -nacional e internacional- pela certeza de que haverá público para todos eles.

Dez milhões de habitantes para quase seis milhões de automóveis. E pouco menos de 70 quilômetros de linhas de metrô. Um caos urbano que rouba tempo de seus moradores e atordoa os que por aqui chegam a negócios, compras ou para fazer turismo cultural.

São Paulo cobra caro pelo status de ser a única cidade do Brasil onde o capitalismo aconteceu. As distâncias são enormes e a insegurança ainda maior. A poluição é assunto sério em dias de inversão térmica. Aqui estão os melhores motivos para amar e para odiar um centro urbano, que assiste silenciosamente aflito o desenrolar imprevisível da coexistência cada vez menos cordial entre a musculatura de sua economia e as favelas gigantescas, espalhadas pela periferia.

Há muito desisti de odiá-la, talvez nunca tenha querido mesmo ter por ela esse tipo de sentimento. Vejo-a cada vez mais apenas como ela é e não mais que isso. Curto seu charme e sua vocação sedutora de pólo cultural vistoso e plural. É como um casamento, impossível fechar os olhos para as erosões do cotidiano mas muito possível tratá-las com compaixão e alguma resignação. E divertir-se pra valer quando a vontade de ser feliz falar mais alto.

Valho-me dessa receita pra ir tocando a vida sem me tornar um urbanóide ressentido com o lugar em que vivo. Quando não dá mesmo, sempre tem o mar de Ubatuda a 2,5 horas de carro. A menos que seja vépera de feriadão. Bom, nesse caso melhor é ir pra Salvador: vc chega lá antes do seu vizinho, que estará preso no congestionamento da Marginal Tietê, coitado.

Nenhum comentário: