POR OUTRO LADO...

sexta-feira, 18 de maio de 2007

NOSSA LINDA JUVENTUDE


O único problema de ser jovem é constatar que isso é um presente da natureza somente depois que os primeiros cabelos brancos já chegaram. O que não quer dizer absolutamente porra nenhuma pra quem agora desempenha o privilegiado papel de tomar o mundo de gute-gute.

A vida é um tapa, como breves são os deliciosos anos da juventude. Um espetáculo de viço, de coragem, de poros abertos. Tempo de pagar pra ver qual é, uma liberdade que os anos nos retira, convencendo-nos que nem todas as causas merecem o empenho de nossas energias.

Não há crueldade do destino nisso. Nossas forças vão aos poucos tornando-se mais raras, carecem mesmo de boa administração enquanto escassos recursos que se tornam inexoravelmente com o lento passar dos anos.

Lembro perfeitamente dos muitos acampamentos feitos em Itaparica no fim dos 70, início dos oitenta. A hora de voltar pra casa era quando a grana acabava de vez e o cardápio começasse a incluir coisas pouco elaboradas, como caldo de salsicha com biscoito. Até lá, muito sol, praia, birita, violão, maconha e beijo na boca. Toni Vasconcelos declamando Ferreira Gullar na pracinha da matriz de Mar Grande, que assistiu também em seus botecos aquela meninada da Escola Técnica discutindo acaloradamente se era ou não admissível marchar junto com Magalhães Pinto pela redemocratização do Brasil.

Debates que não mudaram os rumos do país mas tiveram o condão de dar um delicioso sentido às nossas próprias vidas.

Hoje eu ando pelas ruas e me emociono ao ver um casal de 16 anos de mãos dadas. Verdade, me enternece, me vejo feliz na pele deles. Eles não sabem e nem têm que saber que isso vai passar. A natureza lhes deu o dom de ignorar a falência das coisas, melhor pra eles.

Aos que exalam o perfume doce da juventude, e a nós, que também vivemos nossos tempos de feliz e ativa perplexidade, cabe muito mais que celebrar experiência ou juventude, como se houvesse antagonismo possível nisso.

O bom mesmo é celebrar a vida, seja lá em que estágio dela nós nos encontremos. Viver intensamente o presente, de olhos abertos e tolerantes para as mudanças que ocorrem dentro e fora de nós mesmos -esse sim é o grande barato de quem sacou que as almas felizes não envelhecem. Como a alma de Soane Matos, baiana porreta e mãe do mundo.

Olhar pra frente ver-se feliz não é um exclusividade dos anos dourados. É deles o poder de dar duas sem tirar, de beber até sair do corpo e estar pronto pra jogar bola no dia seguinte; é não precisar tingir os cabelos nem usar creme anti-rugas.

Viver em paz, inteiro no que se faz agora e com olhos confiantes para o que virá é privilégio de gente feliz. De todas as idades.

Até dessa moça do comercial de xampú aí em baixo, que já deve ter algo em torno de 60 anos e é lembrada até hoje por essa "performance", que fez os produtos Colorama para cabelo venderem que nem pão quente. Ah, pra quem não sabe, creme rinse é como se chamava os atuais condicionadores, aquele segundo produto que se aplica nos cabelos para torná-los mais macios e dobrar o faturamento da indústria de higiene pessoal.

Beijos, fui, volto amanhã.


6 comentários:

marcia disse...

Fantástico. E esse é um slogam que se incorpou à lingua.
Vc notou que a mocinha é dublada por duas pessoas diferentes??
hahahaha

paulo galo disse...

não, nunca notei isso! vc hein? pois é, esse VT entrou pra história, não sei bem pq, ela é muito canastra né? vai ver que é porisso mesmo...acho até que vou mudar de marca de "creme rinse" por causa dessa moça, sabia?

Jacy disse...

Agora eu vi e ouvi vc.Tem a sua marca, a sua cor e o seu cheiro. Isto é o que vale, entende???Vá em frente. Te amo!!!

paulo galo disse...

segundo liliana pinheiro -a mulher, a lenda, o mito- eu ainda me exponho com muita cautela, procurando sempre um tom politicamente correto. tô desconfiadíssimo que ela tem razão, só nõ sei como ajustar as velas pra sair disso sem virar uma metralhadora giratória, que certamente faria mais sucesso de público. gozado como é surpreendentemente difícil verticalizar sem perder a identidade. vou continuar tentando.

Jacy disse...

Vc vai descobrir como. A mulher, o mito, a lenda, é aquilo que nós sabemos que é... e tenho certeza de que ela só dá tacada segura, certeira, coisa pra ficar atento.Tentar e persistir é a sua cara!!!

paulo galo disse...

vc e liliana têm sido mais que excelentes consultoras para esse terreiro. são terapeutas talentosíssimas e muito queridas.