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segunda-feira, 28 de maio de 2007

MÃE


São Paulo esteve gelada nos últimos dias, com mínima andando na casa dos seis graus. Abaixo de 10 é uma tortura sair de casa pra correr ou pedalar, tenho ficado na caverna -por esse, entre outros motivos. Tempos de grandes dificuldades em mim e no que me cerca, todos os indícios postos de que mais um grande corte está se operando na minha emocionante vida. Já nem reclamo, apenas me aflijo no mínimo que consigo.

Entro nesse tempo que parece se abrir diante dos meus olhos mais pobre e definitivamente despojado da ilusão do amor eterno. E lembrando da minha mãe, quando tava na hora de ir pra cama e ela vinha me cobrir e beijar. Lembrança doce e aconchegante, vontade de voltar a ser menino só pra vê-la levantar o lençol bem alto, conduzindo-o suavemente na descida para cobrir meu sono com seu amor.

A emoção do primeiro violão e dos primeiros livros que ela comprou pra mim, ainda criança, constituíram a metade sonhadora da minha alma, desde então em permenente conflito com a metade que queria ficar rica e ir passear na China.

Foi nela que encontrei a aflita anuência para fazer política no final dos anos setenta, época em que a ditadura militar ainda tinha braços musculosos e ativos cassetetes pra dar porrada em estudante. Minha inclinação para essa vivência possivelmente nasceu das preces por ela ensinadas, tantas vezes dirigidas a quem naquele momento “não tinha uma cama quentinha pra dormir”.

Comprei-lhe uma boneca preta que batizei Natasha e fez seus olhos brilharem. Se pudesse voltar no tempo, teria enchido seu quarto de muitas outras bonecas, o que não teria me proporcionado mais do seu amor mas me daria a oportunidadede vê-la feliz e reconhecida na minha gratidão.

Brigamos algumas vezes e sempre fui perdoado, mesmo quando parecia ter razão. Como todas as mulheres de Oxum, mamãe tinha na doçura, no jetinho, a fórmula mágica de fazer-se querida e respeitada por seus cinco filhos homens. Nenhum deles, até hoje, esteve apartado do seu controle e de sua proteção, mesmo quando a arrogância os fez sofrer e o mundo lhes deu as costas. Menos ela.

Aos 74 anos, Maria da Glória Galo detesta quando qualquer dos seus filhos a chama de Dona Maria. É mãe ou mamãe, não abre mão da justa reverência a quem sempre disse que os melhores momentos da vida foram aqueles em que aguardava o nascimento de cada um de nós.

Durante muito tempo achava que era um artifício para cativar e demonstrar o quanto éramos importantes pra ela. Hoje vejo clarinho, clarinho que não, que ela foi mesmo feliz sendo mãe e que amou profundamente a cada uma de suas crias.

Do fundo da minha caverna saio apenas para buscar a certeza do seu colo, pra onde sempre vou quando a vida vem mudar tudo de lugar. A certeza do seu amor afoga o sofrimento e seu lençol continua me acalentando e protegendo.

Fui, deixo beijos e Pavarotti cantando pra Maria.

2 comentários:

Maria Fabriani disse...

Que bonito! Pois é, paulo, mãe é mãe sempre. Eu sinto uma falta danada da minha, que não poderá está aqui quando eu tiver meu filho. Mas tenho certeza de que ela estará sim ao meu lado, mesmo que seja em pensamento. Um abraço!

paulo galo disse...

Max vai sentí-la, sim , Maria. As almas sempre se reencontram!