POR OUTRO LADO...

domingo, 20 de maio de 2007

FOCA, GUILHERME!


O Market Place é um shopping de tamanho médio situado na movimentada região do Brooklin, aqui em São Paulo. Em frente a um blockbuster, o Morumbi Shopping, e próximo às instalações da TV Globo, na Berrini / Zaidan. Faz parte de seu conjunto duas torres comerciais, que abrigam algumas empresas do porte, por exemplo, da Visanet. Movimentadíssimo, também em função do parque de diversões para crianças abaixo de 5 anos instalado no seu piso térreo.

Foi nesse parque, num domingo desses que vi uma cena inesquecível. Sarah, que foi alçada à condição de neta mais velha depois do nascimento de Mateus, tava lá se esbaldando num daqueles brinquedos quando eu notei uma mãe, algo estressada pelo tom da sua voz e pela expressão do seu rosto, dando instruções ao seu filho Guilherme -que devia ter quatro, cinco anos de idade- todas as vezes que o moleque dava uma volta no carrinho e passava pelo ponto onde nós estávamos.

- Guilherme, segura direito no volante!
- Guilherme, cuidado, não se solta!!
- Guilherme, foca no que você tá fazendo, Guilherme!!!

O moleque olhou pra mãe e pros lados, atônito. Como que a perguntar "foca, que foca? cadê a foca?

A primeira reação foi rir, não pude conter. Logo depois, uma imensa compaixão me fez olhá-los mais detidamente. Tive pena daquela mulher e dele, principalmente.

São Paulo é uma cidade que conspira para a formação de comportamentos competitivos e intolerantes. E a criançada da classe média sofre as consequências disso. Desde pequenos, muitos deles recebem dos pais uma pressão gigantesca para que se tornem adultos preparados para o pugilato diário no trânsito e no mercado de trabalho.

Escola, aula de inglês, de ballet, natação, judô - a agenda deles é árdua e totalmente voltada para sua "qualificação". Ninguém joga bola na rua, ninguém sobe em árvore. Todo mundo repete os mantras da metrópole: preparar para formar homens e mulheres "vitoriosos". Que vão crescer sem ter visto uma galinha de perto ou uma família pobre espremida numa favela -mas vão ocupar postos importantes nas corporações instaladas na cidade, quando terminarem suas faculdades. Ou na administração pública, para o azar da enorme população excluída das periferias.

Essa classe média continua sendo hegemônica por aqui. E a patuléia segue ao seu reboque, sonhando com os objetos de consumo ostentados diariamente diante de seus olhos sedentos de afirmação social.

Um dia, o Guilherme poderá ser o prefeito de São Paulo. Ou se rebelar e virar monge budista, quem sabe? mas pode apostar que é dessa relação severa entre pais e filhos, sob o manto de uma sociedade esquizofrênica e repressiva, que aprendeu a classificar seus cidadãos como vitoriosos e fracassados, que nascem também pessoas como Suzanne Richthofen e como o jovem coreano lá da Virgínia, USA. Ou como os bandos de bad-boys de Brasília e do Rio de Janeiro. Violência praticada por pesoas que não são economicamente excluídas mas que reagem estupidamente contra relações familiares e sociais materialistas e repressoras.

Entre as classes, o ódio está perigosamente maior, a cada ano. Os tumultos em Paris, meses atrás e o confronto com a PM durante o show do Racionais MC na Virada Cultural desse ano ilustram isso. A hostilidade é crescente e terá consequências imprevisíveis se os governos do mundo inteiro não perceberem que a exclusão gera efeitos que não podem ficar no âmbito de suas políticas de segurança pública, como faz o governo de São Paulo.

As migalhas distribuídas arrefecem cada vez menos a raiva das periferias. A violência continuará explodindo mais e mais, vitimando inclusive meninos como o Guilherme e como o João Hélio, no Rio de Janeiro. É passada a hora do preconceito dar lugar ao apoio às políticas de inclusão que o governo Lula tenta implantar, com grande dificuldad, em todo o país. Até quando a indiferença e a mesquinhez política será mais forte que a necessidade históricxa de fazer o Brasil crescer distribuindo riquezas e acolhendo seu povo?

Tomara que o Gulherme cresça e consiga ver que há algo de estragado na sua mãe e na política, tão estragado como o comportamento violento das torcidas organizadas de futebol. E faça sua parte para que o convívio social numa cidade como São Paulo deixe de ser esse salve-se-quem-puder, praticado diariamente por aquela louca que vi no parquinho do shopping e por Madame Sheila no esquete do Terça Insana, aí embaixo.

É só focar na coisa certa, viu Guilherme?!

Volto amanhã, beijos, fuuuuuiiiiiiii!!

2 comentários:

Marcus disse...

Nilson comentou lá no Licuri e eu até reagi, mas ele tem razão: "Roberto Freire, aquele da somaterapia, disse uma vez: amor de mãe é pior que bomba atômica" Mas Guilherme sobreviverá, como nós todos sobrevivemos. Quanto à ausência do lúdico na vida das crianças, se Sarah e Mateus morassem aqui em Salvador eu indicaria para eles a Crear http://www.escolacrear.com.br/.
Um abraço, bivovô.

paulo galo disse...

tomara que sim, marcão. a inércia, porém, é de que ele se forme pela USP, vire executivo e compre no futuro uma casa num condomínio fechado em Alphaville. pelo menos ele tem a chance de ser diferente, quem sabe. quem não tem é aquela mãe, essa tá perdida mesmo! beijos parceiro.