POR OUTRO LADO...

segunda-feira, 14 de maio de 2007

CLIVAGEM PAULISTANA

Em todas as capitais brasileiras os bairros urbanizados da classe média e dos endinheirados ficam próximos, quando não ao lado, das favelas semi-urbanizadas ou completamente abandonadas pelo poder público. As fronteiras às vezes não existem, como no Rio (Vidigal olhando de perto São Conrado) ou Salvador (Candeal e Barra).

São Paulo organizou seu apartheid de outra forma. Excluído mora na periferia, ponto. Com raríssimas exceções, como o Real Parque e Paraisópolis, vizinhos pobres do elegante bairro do Morumbi para dar um exemplo entre mais alguns outros, que apenas confirmam a regra.

Mas a clivagem social paulistana faz aparições imperceptíveis aos olhos de sua enorme e politicamente hegemônica classe média. O caso do seu Samuel ilustra bem isso.

Próximo ao escritório onde até pouco tempo atrás eu dava expediente fica uma das esquinas mais caras do Brasil, o cruzamento da av. Faria Lima com a av. Rebouças. A poucas quadras dali estão os Shoppings Eldorado e Iguatemi. Na mesma quadra, num prédio moderno e bonitão, está instalado o quartel general do portal UOL. Muitas outras empresas de grande porte também estão por lá.

E por lá também estabeleceu endereço comercial e residencial há 20 anos o engraxate Samuel, gaúcho de 62 anos que migrou para São Paulo em 1969. A coisa é assim: o cara não tinha onde morar e exercer seu ofício. Resolveu dar uma solução global para os seus problemas construindo uma super caixa de engraxate, que à noite vira dormitório por uma portinha nos fundos, no exato tamanho para um homem deitar e dormir.

Meu queixo caiu quando ano passado o cara me contou sua história e apresentou sua moradia, exatamente embaixo da cadeira em que ele lustrou meus sapatos.

- Mas... seu Samuel, como é que faz se der vontade de fazer xixi de noite?
- Uso essa garrafa aqui, meu filho.
- E pra tomar banho?
- Tem uma pensão ali no Largo da Batata, é cinco real. Tomo de dois em dois dias, três em três dias... é caro, né?
-Mas...e pra fazer cocô??
- Aí tem os bares aqui por perto.
- Pra comer...?
- Ó o bujãozinho aqui!

Fiquei chapado. Paguei, agradeci e fui almoçar no Iguatemi, onde antes de me dirigir à praça de alimentação entrei numa loja Diesel. Jeans bonitos, quanto custa? a vendedora, sorridente:

- A partir de R$1.330,00. Essa peça aqui tava por R$2.100,00 e entrou na promoção, sai por R$1.640,00!

A fome passou. E eu voltei pro escritório, num mau humor de meter medo a um Dragão de Komodo.






Nota: Somente em dia de chuva o pessoal da prefeitura faz vista grossa pra esse plático verde que aparece nas fotos . Em dia de sol eles não deixam, pro local não ficar com visual de favela, entendeu?

4 comentários:

Marcia disse...

É esse nosso país não é fácil. É triste ver casos como esse diariamente. O pior é ficar impotente, não há muito o que fazer. Ou não?

paulo galo disse...

acho que da pra fazer alguma coisa sim marcinha. indignando-se, denunciando e escolhendo com cuidado parlamentares e governantes comprometidos com mudanças estruturais para o brasil. aqui por exemplo eu falo de sacanagem, de poesia, de arte, futebol e e qualquer outro assunto. mas escolhi não deixar de falar de cidadania, por exemplo. não consigo ver essas coisas e ficar calado, entende? é isso, beijinhos!

Marcus Gusmão disse...

A única vantagem é que para aplacar a solidão, a Augusta está também ali perto.
Prabéns pelo texto, parabéns pelo olhar.

paulo galo disse...

Vale qualquer coisa pra resolver a parada, menos levar pra "casa": lá dentro só cabe um!