POR OUTRO LADO...

sábado, 26 de maio de 2007

BRAVO!


Enquanto formam-se filas e mais filas em todo o Brasil pra assistir Homem-Aranha e Piratas do Caribe, assisti sozinho na sala Aleijadinho do HSBC Belas Artes ao excelente “Esses Moços”, de José Araripe Jr –seu primeiro longa-metragem.

Saí do cinema feliz da vida de ver a Bahia tão bem reproduzida. O filme é pura poesia mesmo, em nada lembra o sofrível Ó Pai Ó! da Monique Gardenberg. Nós, os baianos, estamos redimidos. E nós, os paulistas, bem contentes.

Fotografia e direção de arte impecáveis, Salvador surge belíssima na telona em grandes planos da Cidade Baixa, onde boa parte da trama se desenrola. Bom rever a Feira de S.Joaquim, que já havia sido bem percebida no ótimo "Cidade Baixa", de Sergio Machado.

Inaldo Santana manda muito bem no papel do velho Diomedes e as meninas são excelentes. A mais velha certamente fará menos sucesso entre o público: sua personagem carrega toda a dureza de quem já tão nova sacou que tá fudida e precisa se proteger agressivamente de tudo e de todos, sempre.

A mais novinha encarna a doçura esperta de uma menina baiana. Carinhosa, chameguenta, alegre. Ri bem da aspereza que a cerca e que ainda não avalia em toda sua extensão, como já faz a irmã mais velha.

Um roteiro esvaziado de glamour e repleto de belas imagens de uma cidade que não merece tantos séculos de maus tratos como Salvador. A cadência é suave e a montagem do filme colaborou muito para que isso acontecesse.

As críticas que li hoje não são favoráveis a Esses Moços. Li a do Cláudio Marques (Coisa de Cinema) e um texto da Reuters publicado no UOL. Fiquei com a sensação de que não vi o mesmo filme que esses críticos.

Nada há de caricato, ao contrário, Salvador é lindamente filmada naquilo que ela predominantemente é, uma cidade bonita, pobre e mal cuidada. Araripe conseguiu captá-la nobre em sua pobreza e saiu-se muito bem da armadilha de uma narrativa sociologizante. Quis e fez uma obra narrada em tom de poesia, sem compromisso no apontamento de soluções para o grave problema da exclusão social e focado nas personagens das meninos e do velhinho. Golaço.

Há quem preferisse assistir uma denúncia mais contundente. Eu achei ótimo ver todas essas mazelas tratadas com suavidade e lirismo. O drama dessas pessoas me incomodou do mesmo jeito mas como é bom lembrar que elas não são estatísticas, não são teses de doutorado ou motes de discursos políticos.

São gente de carne, osso e sensibilidade. Matéria prima muito bem tratada pelo poeta-cineasta Araripe e sua equipe. Amei.

Volto amanhã. Deixo quem chegar por aqui com um pouquinho da batucada majestosa do Olodum. Beijos, fui!


2 comentários:

Esses Moços - o longa. disse...

Rubro Negro, fiquei muito feliz em saber que foi você o cara que viu meu filme,rsrsrs.

Muito sensível sua leitura.

Já recortei e vou usar pra divulgar,
com a licença dos Orixás.

abrc


Araripe

paulo galo disse...

Araripe,

Uma felicidade ver seu comentário aqui no BG.

Você fez uma opção corajosa ao rodar um longa em ritmo de poesia. Talvez não seja um campeão de bilheteria mas tenha certeza que vai te abrir portas muito legais daqui pra frente. Parabéns a você e a toda rapaziada que construiu essa página importante do cinema brasileiro e baiano. Você é um craque, seu moço.

Mando daqui de sampa saudações rubro-negras e todo o axé do mundo pra você, amigo poeta-cineasta.