POR OUTRO LADO...

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

UM FELIZ 2008 PRA VOCÊ E PRO MUNDO INTEIRO


Tinha dado por realizado o desejo de expressar aqui meus votos de um feliz 2008 a todos, até descobrir a ilustração acima, uma das disponíveis no blog Mude o Mundo (veja mais clicando aqui). Para ver ampliado basta clicar em cima da imagem.

Se pudesse, abraçaria pessoalmente cada um dos amigos que tenho nesses últimos dias de 2007. Tenho ótimos notivos para amá-los e respeitá-los.

Que Deus os façam felizes, sábios e saudáveis nos próximos 12 meses, 12 anos, 12 décadas.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

OBRIGADO


O Blog do Galinho seguirá em recesso até os primeiros dias de 2008.

Obrigado a todos que por aqui estiveram nesse 2007. Deus ilumine os caminhos de cada um de vocês nesse novo tempo que começa.

Beijos, até breve.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

DEVAGAR COM O ANDOR QUE A SANTA É DE OURO

Fui ver ontem o povo da Casa Branca louvar Oxum. Barracão vestido de dourado para uma festa linda, no mais antigo terreiro de candomblé de que se tem notícia na Bahia.

A Sociedade São Jorge do Engenho Velho ou Ilê Axé Iyá Nassô Oká continua pulsando axé e conhecimento. A idade avançada de Mãe Tatá, Yalorixá de 86 anos de idade, bem como de boa parte de seu corpo de Ogãs, Equedes e Yaôs não tira desse Ilê Axé mais que centenário a condição de casa primordial e ativa do culto jêje-nagô.

Ao contrário. Ver Mãe Tatá e sua Yakekerê, Mãe Nitinha, em suave transe de orixá ontem à noite me encheu coração de alegria e de certezas quanto ao futuro daquela casa. Sua história é o patrimônio que a empurra –lentamente, como convém levar ao lidar com aquelas velhas e lindas senhoras- rumo ao futuro.

A Casa Branca transpira passado, ancestralidade, conhecimentos transmitidos oralmente há muitos séculos. De seu barracão nasceram O Ilê Axé Opô Afonjá e o terreiro do Gantois, só pra falar de dois dos mais famosos. Muitos outras casas de santo nasceram naquele chão sagrado.

Impossível ver Tatá e Nitinha dançando, viradas em Oxum, sem associar seus movimentos vagarosos à capoeira Angola, que se distingue de sua “filha” Regional, entre outras características, exatamente pela cadência mais suave, mais impregnada de manha e aparente lentidão.

A Casa Branca não tem pressa. Sabe bem que caminhar sabiamente para o futuro requer paciência, atenção, zêlo. Não carece de tanto vigor, ainda menos de velocidade.

Não vi Cristina, amiga de décadas e abiã ansiosa por sua iniciação como Yaô. Mas não tem nada não, Maria Cristina: em breve tempo voltarei lá pra te ver brilhando na festa de sua iniciação, resplandescendo no louvor ao seu Orixá. Pode me esperar, estarei lá pra aplaudir você.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

AINDA SOBRE HIENAS

Ulysses Guimarães costumava dizer que política não se faz com o fígado. O ódio, dizia o velho cacique paulista, é fundamental para construir grandes erros.

Lembrei disso hoje, assistindo a repercussão na imprensa da derrota do governo no Senado. As declarações de ministros e parlamentares governistas estavam perfeitamente alinhadas, afirmando em uníssono que a perda não foi do governo mas do país, na medida em que importantes ações que beneficiariam a população -principalmente na área da saúde- e que seriam viabilizadas com os recursos da CPMF, agora terão que ser canceladas.

Vi um Serra atônito agora a pouco no Jornal Nacional, afirmando que o governo não deveria cortar verbas para os estados, por conta da não prorrogação contribuição. O tom de Aécio Neves foi o mesmo.

Fiquei com a impressão que do ponto de vista do marketing político o PSDB e o DEM pagarão caríssimo por essa tentativa de garrote financeiro praticado contra o governo Lula. As consequências da extinção desses recursos serão facilmente debitadas na conta desses líderes da centro-direita brasileira. Uma autêntica vitória de Pirro.

Como fui derrotado pelo meu próprio oráculo no post de 08/12, em que afirmava que o governo faria aprovar a matéria no congresso, recolho meus búzios sobre próximos capítulos da novela CPMF.

Calo a voz do aprendiz de sacerdote mas deixo o publicitário dizer que a vitória de hoje dos Virgílios e Agripinos os farão ranger os dentes em brevíssimo tempo. A sociedade brasileira não vai gostar de saber que o governo faria "isso e aquilo" se tivesse a grana da CPMF no cofre. O governo vai deitar e rolar, quem viver verá.

HUMILDADE DIANTE DE HIENAS

O governo Lula sofreu importante derrota no Senado, noite passada, ao não conseguir prorrogar a cobrança da CPMF até 2011.

Uma decisão que gerará consequências econômicas ruins para o governo, no curto prazo. Mas que poderá reoxigenar sua atuação no parlamento e na convivência com os governadores de todos os partidos, unânimes na defesa do imposto. Os poderes executivos perderam para o Senado brasileiro.

É possível que estejam certos os analistas que afirmam que faltou humildade aos homens do governo na hora de negociar. Ou mesmo incapacidade política para avaliar quanto e quando teria que ser cedido para que, perdidos alguns anéis, restassem os dedos.

Pode ser. A esquerda é arrogante sim, tem grande dificuldade de dialogar. Mas não é demais lembrar que do outro lado do balcão tinha gente disposta a inviabilizar de qualquer maneira um governo vitorioso nas urnas e que ainda ontem exibiu outra fornada de números exuberantes na economia (PIB do 3º trimestre) e na avaliação pública (pesquisa Ibope). O jogo é duro mesmo e o Senado reúne os mais figadais opositores do governo no Congresso Nacional.

Inviabiliza-se uma negociação pelo uso da arrogância, é claro. O mesmo vale, é bom lembrar, quando a má vontade política caminha ao lado da ganância desmedida- ora de mãos dadas, ora não, com essa mesma má vontade. A chantagem é arma contumaz dessa gente que no poder não hesitou em atropelar a tudo e a todos que no seu caminho se interpusesse.

O governo aparentemente não cedeu às chantagens. Mas cedeu à miopia da má avaliação da correlação das forças.

Nem tudo são flôres murchas, porém. A CPMF deverá voltar à pauta do Senado em 90 dias, destacada ou no bojo de uma Reforma Tributária. No calor dos acontecimentos de ontem, parece ser a segunda a hipótese mais provável. E a mais necessária para o país.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

MENINOS AOS 15 ANOS E AS NOVAS FACES DE UMA VELHA CRISE


Há algo de estranho no ar. No ar dos meninos na faixa dos 15 anos, em geral cursando o primeiro ano do ensino médio.

Gostaria muito de acreditar que houve uma notável coincidência mas não dá. Próximos a mim, 4 adolescentes com essas características perderam o ano na escola. Um número que me chamou a atenção por um motivo básico: não são muitos os adolescentes do sexo masculino que tenham em torno de 15, 16 anos com quem eu me relacione. Fiquei encafifado e fiz uma pesquisa rápida sobre o assunto, encontrando uma entrevista feita recentemente pela Folha de São Paulo com um psicólogo norte-americano (leia aqui). Estudioso do comportamento desses adolescentes, ele aponta o viés da agressividade como o mais alarmante sinal de que algo está errado.

Não me cabe concordar ou discordar de teorias como a apresentada por esse psicólogo ou por qualquer outro pesquisador do assunto. Não tenho qualificação técnica para o debate, sequer para vislumbrar as diferenças regionais desse fenômeno.

Apenas sei que a educação dos adolescentes do sexo masculino não está dando conta de suas inquietações. Os índices escolares deles-e o Ministério da Educação já percebeu isso- estão em queda acelerada nos últimos anos.

Não tenho qualificação técnica para o debate, já o disse. Mas xereta eu sou e por assim ser quero sublinhar aqui alguns aspectos comuns às trajetórias desses quatro meninos com quem mais ou menos proximamente convivi nos últimos meses.

1) São filhos de pais superprotetores mas pouco capazes de dialogar afetuosamente com eles, sem partir pra porrada física ou verbal na hora de impor limites.

2) Aliás, dar limites não é a especialidade de nenhum desses pais que conheço. O comportamento deles parece oscilar entre a omissão e o autoritarismo na hora de dizer não aos meninos. E mais: os mimos materiais em forma de tênis, roupas grana e celular parecem não fazer mais frente à necessidade da molecada em vivenciar relacionamentos familiares estruturados. Na verdade, acho que esse escambo nunca funcionou mesmo.

3) Tá bom, pode chamar de platitude, não me importo. Mas cada dia mais me convenço que a trama primordial entre homens e mulheres é tecida em torno de um velho fundamento: mulheres cuidam, homens protegem. Homens sem ter alguém que os ponham no colo e digam "tadiiiinho!" ficam desnorteados, como se faltasse o sopro afetivo vital nos seus cotidianos. Há quem diga que a ausência dos pais, em função de suas jornadas de trabalho cada vez mais longas, está provocando um estrago maior entre os meninos que entre as meninas.

4) Horas e horas e horas e horas de navegação na internet é comum aos quatro casos de que falo aqui. MSN, Orkut e putaria em doses cavalares. Numa hora em que o cara está estreando para a dinâmica comportamental dos próximos anos, com muito sexo (real e virtual), álcool, música trepidante, conteúdo televisivo violento -tudo em alta velocidade. A internet sem limites tá fazendo um estrago monumental na jovem rapaziada, tô convencidinho da silva.

Aparentemente tá mais difícil criar adolescentes agora que a alguns anos atrás. principalmente meninos. É muito fácil apontar culpabilidades paternas, como se pais e mães quisessem ou gostassem de ver seus filhos fracassando nos estudos e/ou reproduzindo comportamentos violentos.

Mas a velha e boa crise da adolescência, recheada de acne e punheta, parece que ganhou novos contornos e eles não são legais, não. Melhor tratarmos de entender direito essa história.

Quem tiver textos ou links sobre o assunto pode mandar pro meu e-mail que eu publico aqui. Comentários, como sempre, são bem vindos.

Fui.

sábado, 8 de dezembro de 2007

CPMF, MANIFESTO DOS CASTANHOS, A DIETA DO BISPO E OUTROS QUETAIS

Brasília ferve em torno da votação da CPMF, uma criação da dupla PSDB e PFL (DEM) sob império de FHC I, o Chique, para cobrir os rombos orçamentários de suas inesquecíveis gestões e que agora é por eles defenestrado com o argumento de que a carga tributária é escorchante, que o governo gasta prodigamente, que assim não dá e blá, blá, blá...

Nomeações pra cá, emendas parlamentares pra lá, chantagens e ameaças pra lá e pra cá. Ver esse povo –governo e oposição- brandindo ideologia em nome da partilha dessa porrança toda de grana diverte-me ao tempo em que enche-me os culhões . Ao final, vai dar o óbvio: o governo conseguirá aprovar a prorrogação do imposto até 2011 e a maioria dos atores em cena receberá um bom quinhão do muito que lhes toca nesse latifúndio. É gozadíssimo ver essa gente elaborando discurso durante a suruba pra falar de dinheiro –do nosso dinheiro, diga-se.

O genial Millôr foi quem melhor situou questões dessa natureza, tempos atrás. "Se alguém lhe disser que não se trata de uma questão de dinheiro mas de princípios é porque trata-se de uma questão de dinheiro". Talão de cheques e caneta a mãos, pois.


Jacy Sande, perguntada hojede manhã sobre o percentual de fios brancos da minha vasta cabeleira, mandou na hora um “70%!”. Ô mau humor, pensei.

Juro que mal ultrapassa os 50%, o que já não é pouco pra quem tem 44 anos nesse vale de lágrimas. Avaliações percentuais à parte, o fato é que isso não retira de mim a condição de ser um homem castanho.

Tenho olhos castanhos, cabelos predominantemente –insisto- castanhos e pele morena, um tom de castanho. Sou portanto uma pessoa castanha e como tal gostaria -e mesmo exigo- do governo Lula um tratamento adequado, por justo que me parece ser, às pessoas da minha etnia.

Nós, os castanhos, temos sido historicamente injustiçados nesse país. Os brancos eram os donos da Casa Grande, sempre estiveram bonitos na foto; os índios, massacrados aos milhões durante séculos, recebem terras e dinheiro do governo pra viver com suas famílias sossegadamente, investindo o tempo que for necessário para produzir bugigangas artesanais e vender madeira nobre de suas florestas.

Os negros, vítimas históricas do escravagismo e da indiferença de sucessivos governantes e parlamentares, conquistaram direitos importantes como o tratamento dado aos remanescentes dos quilombos e as cotas nas universidades públicas. Falta muito mas houve avanços, é fato.

E aos, sniff, castanhos? Nada, absolutamente porra nenhuma. Nem uma cotinha de merda no ensino superior.

Isso não pode continuar assim, companheiros castanhos! Devemos nos mobilizar nacionalmente para a defesa dos nossos interesses, mesmo que apontados pelos invejosos como falaciosos ou mesmo escusos. Fodam-se, temos o direito de cotas nas universidades também, como não?! O mecanismo pode ser o mesmo dado aos autodeclarados negros: “sou castanho” e pronto, um pezinho na faculdade já estava posto.

Sofrido povo castanho: uni-vos!


O Bispo Capio está hoje no 12º dia de jejum desde que resolveu entrar em greve de fome mais uma vez pra impedir as obras de transposição do Rio São Francisco. Nem um naco de bode assado ou surubim na brasa, nada. Disse que morre se o governo não voltar atrás da decisão de executar a bilionária obra.

Por mais que sejam sérios –embora não unânimes- os estudos que apontem a inconsistência técnica e financeira do projeto do governo federal, não me entra na cachola que essa estratégia do padre seja digna de aplauso ou compaixão. Mais parece um delírio messiânico, um ato extremo de declarado amor à humanidade, inspirado no feito do Cristo.

Gestos políticos dessa ordem -da qual me parece fazer parte a estratégia da ocupação de reitorias pelos estudantes, em luta agora contra o REUNI- parecem-me muito mais atos autoritários que ações democráticas. Enxergo truculência, chantagem e autopromoção onde deveria estar presente o debate vigoroso de idéias.


O Ministério do Meio Ambiente divulgou essa semana dados sobre o desmatamento na amazônia, baseados no monitoramento feito por satélites. Diminuiu pelo terceiro ano consecutivo e registrou um número praticamente igual ao de 1991, em torno de 11 mil km quadrados. Veja a notícia completa do Estadão aqui.

Pena que o PDDU (Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano) do alcáide-mercador de Salvador, João Henrique, não buscou nas ações vitoriosas da ministra Marina Silva a inspiração para que a velha cidade da Bahia não venha a tornar-se uma metrópole hostil à natureza em poucos anos.

Bundão. Escroque.


Outros já o fizeram aqui em Salvador mas a gravidade do tema impõe que eu publique, ainda que tardiamente, a mesma denúncia: o túnel Américo Simas vai desabar.

Esse fato iminente mobiliza minha consciência cidadã e meu amor à pele> Mais pelo segundo motivo, é claro. Moro no Santo Antônio, precisamente em cima da porra daquele túnel. Quem passa por ali no sentido Vale de Nazaré pode olhar pra cima que verá uma janela vermelha incrustrada numa casa branca. É do quarto que ocupo.

Saibam os leitores desse blog que uma eventual desatualização desse puleiro, associada ao desmoronamento daquele barranco por sobre o túnel, poderá ser o sinal do meu trágico desaparecimento desse vale de lágrimas.

Pêsames poderão ser dirigidos no campo de comentários do último post publicado. Adeus governantes cruéis!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

DESTILARIA DE GENERALIDADES

Acordei excepcionalmente cedo e bem disposto nessa manhã luminosa de quinta-feira, aqui na esquina do paralelo 13 com o meridiano 38, a velha cidade da Bahia. Digo "excepcionalmente" porque, diferentemente de Marcus "Licuri" Gusmão, tenho crônica dificuldade de acordar as 05h:00 da madrugada.

Quando isso acontece demoro mais ou menos uma hora pra alinhar meu movimento de rotação com o do planeta, o que me faz perceber tudo em volta como muito estranho. Mas nem isso impediu-me de calçar o velho tênis desbotado e sair pra correr 40 minutos e fazer um monte de flexões e alongamentos. Como é duro tirar onda de gatinho depois dos 40.

Ainda assim adoro correr. E encho o saco de amigos e desconhecidos sobre a redenção que a atividade física inaugura na vida de uma pessoa. Tudo fica mais fácil, mais rápido, menos cansativo. Uma beleza. E alternando as corridas com as pedaladas então fica melhor que bacon com ovo, como dizia meu amigo Joe.

Pena que minha bike segue quebrada na casa de Carina e Otávio Almeida, aos cuidados de Rivelina, gestora do imóvel e de tudo o que há dentro dele. Perto do apartamento deles, em frente à praia do Buracão, ela resolveu suicidar três raios da roda traseira, que por sua vez não deixou por menos e transformou-se num "oito" de alumínio. No momento em que administro severas restrições orçamentárias, por Júpiter!

Meninos, cuidem bem dela, já-já vou buscá-la, viu?

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O Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) de Salvador será levado a voto na Câmara dos Vereadores nos próximos dias. Com ele, a Soterópolis assistirá um extraordinário boom imobiliário na orla, cujo gabarito será modificado para atender às pressões da indústria da construção civil, que exige a construção daquelas torres enoooooormes, modernosas e com vista permanente para o mar.

Esse será o legado do tal João Henrique, alcáide eleito em 2004. A prefeitura de Salvador virou um frenético balcão de negócios da construção civil e há grandes riscos de que muitas verdes áreas públicas desapareçam do mapa urbano em nome da "necessidade de estimular a economia municipal", como diz o esperto JH.

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Quer conhecer um blog baiano de classe internacional? vai lá no Ingresia (veja o link na barra lateral) e divirta-se com os textos saborosamente corrosivos e as abordagens criativas do Franciel, um cracaço na blogosfera brasileira.

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Às vésperas de completar um ano de governo, Jaques Wagner está diante da necessidade de começar a colocar a pica sobre a mesa e exigir resultados de seus colaboradores, se é que dá pra chamar Bobô e outros muitos de "colaboradores". Estão mais pra coveiros do novo cabeça-branca da Bahia, que deveria aprender com o velho ACM uma das poucas lições positivas que este foi capaz de produzir: a de provar diariamente para o povo da Bahia que o gerente do Palácio de Ondina tem culhões e consegue agir comunicando-se com clareza e riqueza de simbologia. E com firmeza para cobrar realizações de seus assessores, mandando-os para a puta-que-os-pariu se preciso for.

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Segue envolto em densas nuvens o jogo eleitoral de Salvador para as eleições de 2008. Mantenho o palpite dado aqui mesmo alguns meses atrás: restarão na reta final da disputa os nomes de Imbassahy (com o apoio do carlismo), do nefasto João Henrique e o de Lídice da Mata, que deverá ser o nome forte da esquerda a combater por um lado, em bom publicitês, as "sombras do passado" representadas por Imbassahy, ACM Neto & Cia; e a crônica incompetência pública e esperteza privada do atual prefeitinho, por outro lado. Tá bonita na foto, a tia Lídice.

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Excelente a cobertura da TV Educativa da Bahia para a festa de uma das mais queridas Orixás santificadas desse lugar, a Bárbara senhora dos ventos Oyá. Documentários de primeiríssima, ótimas reportagens e belas vinhetas. Senti ali os dedos talentosos de Josias Pires em ação. Menino danado.

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A edição impressa de domingo último (02/12) do jornalão baiano "A Tarde" foi um marco nas relações incestuosas entre o poder público e a imprensa.

Explico. A edição de terça 27 do diário foi um primor de jornalismo, informando e comovendo numa manchete de página inteira sobre o crime da Fonte Nova.

Pois não foi que 5 dias depois o assunto não mereceu sequer menção dominical, quanto mais chamada na capa? simplesmente desapareceu do noticiário, sumiu, escafedeu-se. Uia!

Próxima vez que eu encarnar nesse planetinha de merda quero ser publisher. Adoraria vender meus serviços de formador de opinião pública por um preço bem salgado, quer dizer, justo. Juro que investiria parte dele em atividades filantrópicas, tá?

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Saudade asfixiante da minha neta Sarah.

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Fui.

domingo, 2 de dezembro de 2007

JUIZ CONDENA COTAS PARA NEGROS EM S. CATARINA

Essa notícia, enviada pra mim por Jacy Sande na última sexta, chega no momento em que o escritor baiano, mestre em sociologia, Antônio Risério lança em Salvador seu novo trabalho "A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros", nesta segunda-feira, 3.

Um debate sobre a questão racial brasileira, o livro discorda de alguns argumentos dos movimentos negros, e revela perspectivas insuspeitadas para a compreensão da realidade brasileira.

O evento acontece na livraria Tom do Saber (Rio Vermelho), das 19 às 21 horas, com entrada franca.

Não há quem me convença de que o regime de cotas nas universidades públicas para pessoas autodeclaradas negras seja uma política pública justa. E a outras pessoas também, como o juiz federal que prolatou a sentença noticiada a seguir.


Juiz diz que cota para negro é ilegal e concede igualdade a branco em vestibular

A Justiça Federal de Santa Catarina garantiu a um candidato branco ao curso de geografia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) o direito de concorrer a todas as vagas no próximo vestibular, incluídas aquelas destinadas aos candidatos negros.

O juiz Carlos Alberto da Costa Dias, da 2ª Vara Federal de Florianópolis, em decisão desta quinta-feira (29/11), considerou que a reserva de vagas prevista em resolução do conselho universitário da instituição e no edital do vestibular viola o princípio constitucional da igualdade. A sentença tem efeitos apenas em relação ao autor da ação e a UFSC pode recorrer. Procurada, a universidade não tinha conhecimento da decisão até o momento, mas deve se manifestar ainda nesta sexta (30).

O estudante entrou com um mandado de segurança contra a UFSC alegando que a reserva de vagas estabelecida em normas da universidade é ilegal e abusiva.

Na UFSC, 30% das vagas do próximo vestibular terão destinação previamente definida —20% para candidatos que tenham cursado o ensino fundamental e médio integralmente em escolas públicas e 10% para candidatos auto declarados negros, que também não tenham cursado escolas privadas. Para o magistrado, a distinção é contrária à Constituição. "A supressão de vagas ao 'não-negro' viola o princípio constitucional da igualdade, sem que haja real fator para privilegiar o denominado 'negro', em detrimento do denominado 'não-negro'", afirmou.

Segundo ele, não é possível identificar com precisão quem é negro no Brasil. "Diferentemente do que ocorre nos Estados Unidos da América, a miscigenação entre os denominados 'brancos' e 'negros' torna a identificação por fenótipo absolutamente inconsistente", argumenta.

Além disso, "o processo seletivo americano não é baseado constitucionalmente no princípio da igualdade de condições para o acesso e permanência na escola", havendo seleção de candidatos com aptidão para determinados esportes, por exemplo. "Se há dívida social —como de fato há— não é exclusivamente com o negro, mas com toda a universalidade dos que estejam socialmente em desvantagem", diz o juiz.

Ainda segundo o magistrado, o maior obstáculo ao acesso do negro ao ensino superior não seria a condição de negro, "mas o fato de o ensino público anterior ao vestibular ser de má-qualidade e a sua condição social, eventualmente, não possibilitar dedicação maior aos estudos, ou outros fatores que devem ser melhor estudados e debatidos".

Na sentença, ele entende que é possível eleger um grupo de pessoas a fim de diminuir desigualdades sociais, como é o caso do percentual de vagas para portadores de deficiência em concursos públicos. Isso porque, o fator "deve ser pertinente, guardar relação de causa e efeito, ser determinante, explicar o motivo por que se considera aquele grupo ou categoria inferior".

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

EXCLUSIVO: ENCONTRAMOS A SOLUÇÃO DE MORADIA PARA O BAHIA!

Depois da queda, o coice. Não bastasse o avançado estado de decomposição do Esporte Clube Bahia, a exalar um mau cheiro que nem o povo humilde de Itinga aguenta mais, a torcida tricolor agora está diante de um problema, digamos, socioesportivo: o time não tem onde jogar em 2008.

Digo assim, "não bastasse", porque o clube já não tem direção há muitos anos, mesmo tempo em que alternou elencos medíocres com times de perna-de-pau, para a alegria da galera rubro-negra.

A Fonte Nova não tem condição de acolher uma disputa de badmington, está visto; o estádio de Pituaçu está pela bola sete a uma cara. Que fazer?

No Barradão não vai dar. O estádio Manoel Barradas, propriedade do Esporte Clube Vitória, não está a altura das já antigas glórias tricolores. Imagina se o Bahia vai se sujeitar a jogar no lixão de Canabrava? não, não e não. Mesmo na lama há que manter-se a espinha ereta, tá lá no Salmo 23.

A grandeza esportiva e a humildade, duas das mais resplandescentes virtudes que minh'alma abriga, uniram-se para bolar um plano capaz de salvar o Jaía. E por mil abarás, a luz se fez!

No início da avenida Luiz Tarquínio, pertinho (300 metros) do antigo Cine Roma, tem um campo de futebol do Sesi. Se não me engano chama-se Presidente Dutra e deve caber umas 1.500 pessoas.

A diretoria do Bahia, utilizando-se de sua lendária capacidade de negociar inteligentemente, poderia fazer um acordo especial com a TV Globo e sua concessionária local, a TV Bahia, e montar um telão gigantesco ali mesmo no largo de Roma. Cercaria a área e cobraria uma grana preta para que seus crédulos torcedores pudessem, juntos, empurrar o time rumo à série A de 2009.

Valendo-se dessa estonteante sagacidade negocial, reuniria patrocinadores para garantir farta distribuição de cornetas, megafones e fogos de artifício. E mais: espalharia dezenas de microfones para captação do clamor da patuléia, que seria ouvido dentro do estádio por meio de poderosas caixas de som -tudo para intimidar os times adversários com um barulho ensurdecedor.

Pensa que é só? para encher-lhes a alma do mais puro terror, plantaria notícias na imprensa da cidade do time visitante dando conta de que o ex-craque Bobô estaria chegando nos próximos dias para assumir a gestão do estádio local. Demais essa, hein?

Antes que a nação rubro-negra encha a minha pessoa de porrada e o campo de comentários desse post de insultos, por exumar o histórico adversário com tão genial solução, aviso: faço qualquer negócio pra não ver o Bahia jogar no Barradão, exceto quando for pra cumprir a rotina dos últimos anos, a de levar pau jogando contra o Vitória pelo Campeonato Baiano.

No Barradão não, pestilentos!

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

FONTE NOVA: O DESABAMENTO DAS VELHAS MÁSCARAS

O governador da Bahia, Jaques Wagner, anunciou a imediata interdição e a futura demolição do estádio Otávio Mangabeira. Segundo ele, no mesmo local será construído uma moderníssima praça esportiva, apta inclusive a cumprir todas as exigências da FIFA para a Copa do Mundo de 2014.

Muito bom, governador. A Bahia merece mesmo um estádio à altura do seu povo e de suas tradições esportivas. Mas a gravidade dos acontecimentos do último domingo, em que 7 pessoas morreram, tragadas pelo buraco que se abriu sob seus pés durante o jogo BahiaXVila Nova, impõe a necessidade de adiarmos a comemoração dessa decisão. E refletirmos detidamente sobre alguns aspectos dessa e de outras tragédias correlacionadas ao desprezo pela vida humana.

1) É impensável que ficarão impunes os responsáveis pela morte dessas pessoas. O Governo da Bahia deverá responder por crime de omissão ao não ter interditado o estádio logo após sua posse e pior, ter permitido seu uso com lotação máxima. A Sudesb tinha conhecimento das precaríssimas condições estruturais da Fonte Nova e agiu como se fosse um órgão promotor da ascenção do Esporte Clube Bahia à segunda divisão do Brasileirão. Assumiu o risco do anunciado desastre e deverá pagar exemplarmente por isso.

2) As ruínas da Fonte Nova, pintadinhas de azul, expõem com eloquência o que foram os anos da gestão ACM para o patrimônio público baiano. Diretamente ou por meio de seus gerentes-governadores ou gerentes-prefeitos, desprezou-se a manutenção dos equipamentos nos limites da incompetência ou mesmo da má-fé. Não importava manter funcionando o que fora inaugurado com pompa e circunstância: recebida a fatura política, dane-se o que viria depois. Impossível esquecer as palavras de Caetano Velloso: "Parece obra e já é ruína". As fontes secas do Campo Grande, da Praça da Sé, da Piedade; o asfalto precário e os faróis apagados das ruas; escolas e postos de saúde em avançadas condições de deterioração. Simplesmente não há cultura gerencial de manter-se o que foi erguido com os recursos da população. Parou de funcionar? põe abaixo e faz outro, pronto!

3) Essa declaração de Wagner tem um valor simbólico muito ruim. Perdeu-se a oportunidade de pôr a nu o flagelo gerencial do carlismo expresso no desprezo pela manutenção do patrimônio público e, pior, anunciou-se a repetição da mesma prática. Péssimo nesse sentido e incompreensível por não ter dito com todas as letras de que estaria empenhado na apuração das responsabilidades de sua equipe e que não hesitaria em punir se necessário fosse. Faltou culhão.

4) A responsabilidade das gestões anteriores não exime de culpa o ato de omissão do atual governo em relação à interdição da Fonte Nova. Deveria tê-lo feito e não o fez. A coragem demonstrada na área da cultura, por exemplo, faltou por completo nesse episódio.

5) Ainda há tempo do Governador mandar um aviso claro ao seu time de colaboradores, demitindo a direção da Sudesb. Às vésperas de completar o primeiro ano do seu mandato, tá na hora de trocar os copos para a próxima rodada, substituindo pessoas que provaram-se incapazes de fazer frente aos desafios de reconstrução da Bahia. Acima dos afetos pessoais está o dever de corresponder às expectativas do povo baiano de ver-se representado no Palácio de Ondina por gente corajosa, competente, criativa e realizadora. Hora de pôr as cartas na mesa, Governador.

6) A imprensa carlista vai faturar alto com esse episódio e a oposição tem o direito político de lucrar com isso. Explorar os erros do adversário faz parte do jogo. Só não dá pra dizer que a implacável cobertura do jornal A Tarde foi movida por interesses subalternos ou vinculada às conveniências políticas de A ou B. Os fatos são gritantes e estranho seria se o velho jornalão baiano fugisse de sua responsabilidade jornalística diante de tão grave acidente.

7) O governo Wagner não pode ser julgado pela performance perna-de-pau de sua Sudesb. Está operando transformações estruturantes em várias frentes e deverá ser um marco na história gestão pública baiana, se tiver a coragem de substituir alguns gestores incompetentes, que já são, a essa altura, facilmente identificáveis.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

O DESABAMENTO DA FONTE NOVA E A TRAGÉDIA DO SERVIÇO PÚBLICO

Vi ontem à noite no programa Fantástico da TV Globo, uma declaração do diretor da Sudesb (Superintendência de Desportos do Estado sa Bahia), o ex jogador de futebol Bobô, que me arrepiou. Ele afirmou, no rastro da morte de sete pessoas e de dezenas de feridos, que coisas como aquela serviam pra reforçar a necessidade de um novo estádio. Em linha com as declarações feitas por ele próprio e pelo governador Jaques Wagner semanas atrás de que era mais barato implodir a Fonte Nova e construir um estádio novo ali mesmo ou em outro lugar do que reformá-la.

Um fato de tamanha gravidade como o que aconteceu ontem em Salvador merece apuração tão rigorosa quanto cuidadosa. Gritam os indícios de que a Sudesb, a Federação Baiana de Futebol, a CBF e o próprio Esporte Clube Bahia tinham pleno conhecimento dos riscos envolvidos no uso de um estádio em deploráveis condições de segurança estrutural.

O Sinaenco (Sindicato de Arquitetura e Engenharia), em inspeção feita a pedido da CBF recentemente, já havia apontado o estádio de Salvador como o pior entre os 29 visitados pelos integrantes da entidade em todo o Brasil (veja aqui).

O jornal A Tarde denunciava os mesmos problemas em sua edição impresa, logo após a divulgação da escolha do Brail como uma das sedes para a Copa do Mundo de 2014.

O mesmo diário baiano aponta na sua edição eletrônica de hoje de que essa tragédia estava mais que anunciada (veja aqui). A matéria informa, entre outras coisa, que a promotora Joseane Suzart, do Ministério Público Estadual, já havia ajuizado, em janeiro de 2006, ação civil pública na 2ª Vara Especializada de Defesa do Consumidor contra a Superintendência de Desportos do Estado da Bahia (Sudesb), alertando para as instalações físicas precárias da praça esportiva, oferecendo risco à saúde e segurança dos torcedores. Até hoje o poder judiciário baiano não se pronunciou sobre o assunto.

Idênticos alertas foram feitos à Sudesb pelo Corpo de Bombeiros em 2005 e pela Polícia Militar na semana passada.

Ou seja, a Sudesb tinha pleno conhecimento do comprometimento estrutural da velha praça esportiva baiana e ainda assim autorizou "casa cheia" nos jogos do Bahia pela série C. Cedeu, aparentemente, às pressões financeiras e desportivas para que o Bahia pudesse voltar à série B do Brasileirão de 2008.

Conseguiu, o Bahia está de volta à segunda divisão. E sete pessoas serão sepultadas hoje em Salvador por conta dessa inacreditável decisão.


Quem acompanha esse blog sabe que apoiei e apoio o projeto de poder do PT desde a sua fundação. Não sou cristão-novo nesse assunto e continuo convencidíssimo que a história do brasil será contada na base do "antes de Lula" e "depois de Lula". E que Wagner já faz e fará um grande governo na Bahia.

Mas entendo também que os gestores -eleitos ou não- são sempre menores que o Estado. O estado democrático de direito pressupõe a defesa intransigente desse princípio e sua inobservância sempre custou caro à sociedade brasileira.

Se houve negligência do Governo do Estado -e tudo aponta para isso- diante desse horror que vimos ontem, responsabilize-se e puna-se exemplarmente seus autores, custe o que custar e sem tentativas, por favor, de imputar ao governo anterior responsabilidade exclusiva pelo que aconteceu ontem à noite. O poder de interdição da Fonte Nova pertence ao atual executivo baiano, que poderia, sim, tê-lo feito em nome da segurança dos torcedores do Bahia e não o fez. Isso é fato.

Com a palavra, o governador Wagner e o Ministério Público Estadual.

sábado, 24 de novembro de 2007

A UM PASSO DA ETERNIDADE


Essa foto, como todo acontecimento extraordinário, varreu a internet nos últimos dias. Deu no Kibe Loko e no Sarapatel. O notável tricolor baiano Otávio Almeida mandou-me por e-mail, feliz com a virtual ascenção do EC Bahia para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro de futebol de 2008.

Que posso fazer diante da insanidade de pessoas queridas como Handerson Leite, Armando Machado, Álvaro Figueiredo, Marcus Gusmão, Juan Sande e outros tantos, que insistem em macular suas reputações alimentando uma paixão destrambelhada e há muito não correspondida?

Queridos: pensando bem, que são mais alguns anos de penúria diante da eternidade da vida, das eras geológicas, da expansão do universo? a chegada do Jaía na série A em algum momento dos próximos anos coroará esse esforço épico de encher a Fonte Nova a cada rodada, ano após ano, felizes tal qual mosquito em cu de cachorro. O sofrimento aprimora a alma -mesmo as mais rudes, como as da foto, ou as mais insensatas, como a de vocês.

Só lamento não poder corresponder à expectativa de alguns em dirigir minhas melhores energias a esse ícone do ocaso futebolístico brasileiro, em nome da baianidade. Sei bem o que passei na década de 70 ali mesmo na Fonte Nova e por isso afirmo: torço pelo Bahia sim, torço pra que fique décadas alternando temporadas na segunda e na terceira divisão, Com a Fonte Nova sempre lotada, é craro!!

E dá licença porque eu tenho mais é que me preocupar com a Libertadores de 2009, valeu?

Fui.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

DICIONÁRIO HINDU / BAIANÊS - PARTE II


Dando prosseguimento à mesopotâmica tarefa de estreitar laços com o povo da Índia, a pedido do Itamaraty, temos aí em cima o nosso glorioso Frango Assado.

Acredito que os indianos também não comem frango, além da sagrada carne bovina. Se comessem, não chamariam essa variante do Kama Sutra de "A Glória", né?

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

AS BARRICADAS DO DILETANTISMO ACADÊMICO CONTRA O REUNI


Juro, pelos culhões de Júpiter, que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que o corporativismo das academias universitárias e o poder judiciário -pra ficar só em dois exemplos- seja menor que a vaidade de seus membros e o compromisso com o serviço público de alto padrão que se espera dessas instituições.

Mesmo eu, fino menino criado na crença de que a luta por um mundo melhor resumia-se essencialmente na derrota do "sistema", confesso perplexidade diante dos argumentos erguidos contra o REUNI, programa do Ministério da Educação voltado para o ensino superior que se propõe a alterar dramaticamente a relação aluno/professor (dos 10/1 de hoje para 18/1), a oferta de vagas em 100% (especialmente no período noturno), diminuição expressiva das taxas de retenção e evasão e a otimização dos recursos físicos, humanos e financeiros (em outras palavras, gestão competente dos recursos públicos).

O programa ataca também o tecnicismo dos currículos atuais e propõe ações concretas para que os alunos tenham uma formação holística, capaz de torná-los aptos à compreensão de novos conhecimentos através de recursos pedagógicos adequados. Prontos pra aprender a aprender, esse é o conceito perseguido.

Quem quiser tirar suas próprias conclusões, leia as ponderações colocadas pela UNE em seu portal (aqui), favoráveis ao REUNI; e as feitas pelo Reitor da UFCG (aqui), a meu ver impregnadas de frases bem articuladas, de preocupações bem intencionadas e de velha e conhecida capacidade de transformar o óbvio numa discussão eterna e paralisante. Há mais elementos capazes de ajudar a compreender essa história no post de 20/11.

Pra mim deu, já vi esse filme antes, a gente morre no final. Resta-me desejar que o Governo não ceda às chantagens retóricas do corporativismo acadêmico e implemente essa importantíssima política pública.

Como sonhador contumaz, dirijo também minhas incansáveis esperanças de que a academia desça à terra e assuma a responsabilidade de contribuir para o aperfeiçoamento do REUNI e para o desafio da inclusão, da qualidade, da produtividade e da transparência que estão diante de cada universidade pública do Brasil.

O povo brasileiro agradece, doutores.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

UM POEMA-EXALTAÇÃO


mulher, mulher

mistério doce e eterno

que minh'alma comprime

e estica


ainda que a surpresa

a faça

uma estranha forma

de pica



(Inspiração e foto extraídos do impagável Catarro Verde)

terça-feira, 20 de novembro de 2007

POR QUÊ O REUNI INCOMODA TANTO A ACADEMIA?


Segue dando quilômetros de panos pra manga a implantação do programa REUNI do Ministério da Cultura. As entidades representativas dos professores universitários mostram-se frontalmente contrárias a essa política pública do governo Lula. O movimento estudantil, alinhado com os professores, fez da ocupação física das reitorias uma estratégia nacional de resistência ao REUNI.

Aqui na Bahia os estudantes foram forçados pela Polícia Federal a abandonar a sede da UFBA, após mais de um mês de ocupação. O pedido de reintegração de posse foi feita pela reitoria da instituição e o cumprimento do mandado judicial gerou confrontos com os estudantes. Segundo eles, houve truculência por parte da força policial e há ameaça de jubilamento dos alunos envolvidos na ação de ocupação por parte do reitor Naomar Almeida Filho.

Duvido muito que o Reitor Naomar faça uso da retaliação contra esses estudantes, fazendo uso de medidas administrativas extremas diante de um assunto que é iminentemente político. Como duvido também que os estudantes foram "violentamente agredidos" durante a ocupação, a menos que empurrão e condução enérgica possam ser entendidos como selvageria. A polícia estava ali para cumprir um mandado judicial e os estudantes dispostos a não sair. Por Netuno, não se resolveria o impasse na base do "por favor, cidadão estudante, queira fazer a gentileza de desocupar esse prédio público, vamos esperar pacientemente tá?". Polícia não age assim nem no céu, cazzo!

A estratégia da ocupação implica nos benefícios de divulgação da questão perante a opinião pública. Mas implica também no fato de que ocupar indefinidamente um prédio público gera consequências jurídicas, como a do direito da Reitoria em reaver seu espaço administrativo.

Se houve abusos, apure-se e punam-se os responsáveis. De ambas as parte.

O que não dá é pra resumir um assunto tão importante como esse do REUNI aos fatos acontecidos semana passada. O tema não merece tamanha redução.

Os argumentos utilizados pelo MEC na defesa dessa proposição parecem inatacáveis: quem poderia ser contra o aumento da oferta de vagas na rede pública de universidades, inclusive à noite, uma necessidade de muitos trabalhadores poucamente assistida pela União? quem poderia levantar-se contra a evasão escolar e à ocupação de vagas indefinidamente por estudantes que demoram às vezes mais de uma década pra cumprir uma simples graduação?

O bicho parece pegar quando o governo exige parâmetros rigorosos para que as Universidades aderentes ao programa recebam as verbas necessárias à expansão do ensino. A Academia detesta ser exigida e sente-se afrontada quando o MEC cobra transparência e otimização dos recursos físicos, humanos e financeiros disponíveis e dos que virão.

Por outro lado, são reais as possibilidades de que a sede por números do Governo possam atropelar a qualidade do ensino público superior e que o REUNI não indique claramente a necessária compatibilidade entre recursos e metas.

A discussão proposta por alunos e professores é saudável e absolutamente necessária. Não merece ser reduzida ao corporativismo da Academia, às velhas ações radicalóides dos estudantes e a falta de habilidade dos condutores desse assunto dentro do MEC.

Encontrei na net dois panfletos, entre outros arquivos, sobre essa questão. Um, produzido pela UFBA, fala a favor; o outro, de autoria da ANDES, contra. Vou pesquisar mais na rede e trazer documentos com maior profundidade praqui.

Fui.

sábado, 17 de novembro de 2007

LUZES SOBRE O DEBATE RACIAL NO BRASIL


Tornei-me fã de do poeta, historiador e antropólogo Antônio Risério há vinte e poucos anos atrás, depois de ler "Carnaval Ijexá", um ensaio marcante sobre o carnaval da Bahia como palco da questão racial na Bahia e no Brasil.

A produção de Risério manteve-se vertiginosamente intacta nessas décadas. É um dos principais pensadores contemporâneos, referência obrigatória para a compreensão do Brasil.

Após o excelente "
História da Cidade da Bahia", Risério volta à cena editorial prometendo meter o dedo na ferida da discussão étnica brasileira com a obra "A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros", que será lançada ainda esse mês.

Não são poucos os que apontam uma atitude racista e quase esnobe nos "movimentos negros", como não faltam também os que querem desconhecer o secular esmagamento dos povos afrodescendentes. Risério promete enriquecer esse debate, vale conferir.

Enquanto o livro não chega, encontrei hoje no ótimo blog "O Biscoito Fino e a Massa" uma recente entrevista concedida pelo pensador ao jornal
Valor Econômico. Veio daí meu assanhamento pela obra e a vontade de compartilhar aqui o que vi.

Leia a entrevista e veja se a abordagem prometida pode ou não contribuir para a compreensão de questões como a das
cotas raciais nas universidades, uma das pontas desse enorme iceberg e que continua a desafiar minha imensa boa vontade diante das justificativas históricas brandidas em sua defesa. Vejo nessa política pública implantada pelo governo Lula, talvez pelas minhas limitações de ordem intelectual, uma coisa que tem cara de porco, focinho de porco, rabo de porco -mas insiste em ter penas e miar aos meus ouvidos.

P: Em seu novo livro, você defende a idéia de que, ao tratar da cultura brasileira, não podemos nos iludir com fantasias fáceis, novos truques ideológicos e maniqueísmos simplificadores. Você se empenha, ainda, em não fugir da questão chave posta pela idéia de uma democracia racial e cultural. Contra quais idéias dominantes você escreveu este novo livro? Em que direção vai esse caminho original que você vem nos oferecer?

R: Estou nadando, clara e decididamente, contra a maré "bem-pensante", hoje, no Brasil. De uns tempos para cá, enquanto negromestiços norte-americanos passaram a reivindicar sua "identidade birracial", aproximando-se assim do modelo brasileiro, o que está acontecendo aqui é um movimento inverso: negromestiços tentando enfiar a rica e múltipla realidade racial brasileira na camisa-de-força do padrão dicotômico norte-americano, que é essencialmente racista e foi criado pelos senhores brancos do sul dos EUA. Os EUA são o único país do mundo onde a existência de mestiços de branco e preto não é socialmente reconhecida – basta uma gota de "sangue negro" para fazer do indivíduo um "negro" (jamais um "branco", é claro). É isto o que está sendo transposto para cá, por nossos acadêmicos racialistas e agrupamentos ativistas neonegros. Trata-se de tentar transformar o Brasil num campo racial nitidamente polarizado, com base no que aconteceu na vida norte-americana, como se a experiência histórica de um povo pudesse ser simplesmente substituída pela experiência histórica de outro. Daí que o racialismo político-acadêmico de professores e militantes tenha baixado o decreto ideológico de que inexistem mestiços em nosso país. De que nossos morenos e mulatos não passam de uma perversa ilusão de ótica. É certo que a mestiçagem brasileira recebeu, no século passado, uma interpretação senhorial, mistificadora. Mas a solução não é abolir o problema, mesmo porque continuamos mestiços. Temos de saber encarar os fatos. Mestiçagem não é sinônimo de igualdade, nem de harmonia. Não exclui o conflito, o racismo. E a melhor prova disso é o próprio Brasil. É claro que nunca vivemos numa democracia racial. Mas realizamos conquistas que nos autorizam a acreditar que podemos avançar nessa direção. Que podemos realizar o mito, fazendo com que ele se encarne na história.

P: O multiculturalismo é, ao mesmo tempo, uma idéia muito rica e uma idéia contaminada de mal-entendidos e confusões. De qualquer modo, ela parece estar no centro dos principais debates culturais de hoje. O multiculturalismo é uma característica crucial da cultura brasileira. Mas, você mostra, nenhuma das culturas que aqui chegou conseguiu conservar sua "pureza", nesse sentido somos o país das impurezas. Que dificuldades, mas também que vantagens essas contaminações nos oferecem?

R: Minha visão é algo diferente. De um modo geral, podemos dizer que existem países multiculturais e países sincréticos. O Brasil é um país essencialmente sincrético. Não temos aqui nada de parecido com o bilingüismo paraguaio, com as divisões que detonaram a antiga Iugoslávia, com os cingaleses e tâmeis que fragmentam o Sri Lanka, com o que acontece na Nigéria e na Indonésia. Não temos conjuntos culturais fechados, ensimesmados. Aqui, apesar das crueldades da escravidão, as coisas se mesclaram em profundidade. Daí que eu costume dizer que, culturalmente, mesmos os brancos brasileiros são mais africanos do que os negros norte-americanos. Mas há, ainda, uma outra distinção. Uma coisa é a realidade multicultural de um país, outra é a ideologia multiculturalista. O multiculturalismo se opõe às interpenetrações culturais, defendendo o desenvolvimento separado de cada "comunidade" étnica, de modo que esta possa permanecer sempre idêntica a si mesma, numa espécie qualquer de autismo antropológico. Ora, nem o Brasil é multicultural, nem há lugar aqui para o multiculturalismo, a não ser que, como dizia Adam Smith, neguemos a evidência dos sentidos em nome da coerência de nossas ficções mentais. Hoje, de resto, a experiência sincrética brasileira se tornou referência para o mundo globalizado, com todos os seus encontros e atritos interétnicos.

P: Você estuda, em particular, a presença da cultura negra no cinema brasileiro e na música popular brasileira. E faz, sempre, um contraponto com o que se passa na cultura norte-americana. Por que?

R: Sublinho o assassinato espiritual do africano nos EUA. Lá – sob a pressão cruel e poderosa do poder puritano branco – as culturas africanas foram destroçadas, varridas do mapa. É por isso que não há orixás nos EUA (eles só começaram a voltar no século 20, com migrações antilhanas). Os pretos abraçaram a Bíblia. Criaram uma variante do cristianismo puritano. E como elementos, práticas e sistemas simbólicos de origem nitidamente africana inexistem na sociedade norte-americana, também inexistem na criação estética desta mesma sociedade. Dessa perspectiva, a cultura norte-americana pode ser resumida em poucas palavras: nunca ninguém fez nenhum "despacho" na cabana de Pai Tomás. O que vemos no Brasil é justamente o contrário disso. Faço o contraponto para mostrar as enormes diferenças que existem entre as experiências históricas e sociais do povo brasileiro e as do povo norte-americano, com a sua rígida separação entre um mundo cultural branco e um mundo cultural negro, coisas que são fundamentais, mas que nossos atuais racialistas político-acadêmicos não levam em consideração. Se o que aconteceu nos EUA tivesse acontecido também no Brasil, em Cuba e no Haiti, não teríamos hoje sequer vestígios de deuses africanos em toda a massa continental das Américas. Teria sido melhor assim? Não creio.

P: Você se esforça para mostrar que essa influência negra não deve ser tratada só como um elemento de formação, como um aspecto importante do passado, mas também como algo presente, e ainda, como algo que diz respeito ao futuro de nossa cultura. Que exemplos você poderia oferecer da vitalidade da tradição negra? Onde e por quem ela é anulada, e onde consegue não só sobreviver, mas se fortalecer?

R: O ponto principal é que signos culturais de origem africana fazem parte de nosso presente social e cultural. Impregnam e imantam a nossa ambiência. Por isso mesmo, não comparecem, na criação estética brasileira, como dados arqueológicos ou como relíquias salvas de um naufrágio. Pelo contrário: aparecem como produtos concretos da vivência pessoal de nossos criadores (muitos deles, negromestiços) ou, pelo menos, como coisas que existem objetivamente à sua volta. Veja a criação plástica de Rubem Valentim, que é uma espécie de Mondrian dos terreiros, a um só tempo ancestral e construtivista. Veja a obra de alguns criadores do cinema novo, a produção poético-musical de Caetano Veloso, a literatura brasileira, onde Iansã pode irromper até mesmo nas Galáxias de Haroldo de Campos. O fato é que temos a presença ancestral da África na arte brasileira de invenção. Quanto à segunda pergunta, vejo um quadro complicado. Se o candomblé se fortaleceu em meio às elites, está se enfraquecendo em âmbito popular. As massas negromestiças brasileiras estão abandonando os terreiros e aderindo às igrejas neopentecostais, que se utilizam, diabolicamente, de crenças populares e de práticas das religiões negras, como a técnica do transe. Não quero fazer profecias, mas acho que estamos caminhando para a formação de um neocandomblé, não só em São Paulo, mas também na Bahia. Um neocandomblé que se configura a partir da presença, nos terreiros, de pessoas das mais diversas cores, classes e formações culturais.

P: Apesar do prestígio do futebol brasileiro, o futebol continua a ser um tema recalcado em nossa cultura. Você não se esquiva dele e mostra como, apesar de ser um esporte da elite inglesa, ele logo sofreu entre nós uma sábia apropriação popular. Mostra, ainda, como a expansão do futebol afetou o crescimento do rádio e da imprensa brasileira, como ele se tornou produto de exportação e como fomentou uma indústria. Mas como, apesar disso tudo, nunca perdeu a liberdade e a criatividade. Em que medida a recriação ou reinvenção do futebol pelo povo brasileiro ainda é desprezada e por que? Que fatores levaram, entre nós, a uma valorização estética do futebol, a ponto de ele se tornar um "futebol-arte"? Você chega a dizer que o futebol brasileiro é "filho do barroco" – o que isso significa exatamente?

R: Não acredito que haja desprezo, hoje, por essa proeza popular de recriação ou reinvenção de um esporte inglês. Dos tempos de Mario Filho e Nelson Rodrigues para cá, cresceu e muito, por sinal, a legião dos que examinam, estudam e buscam entender a escola brasileira de futebol. E não vejo como situá-la fora da matriz barroca que está na base mesma de nossa formação e vem marcando há séculos, de uma ponta a outra, tanto em plano "erudito" quanto no "popular", a criação cultural brasileira, da arquitetura ao desfile das escolas de samba. Visões do barroco como arte do excesso, como criação lúdica e sensual, como artesanato feito para enfeitiçar os sentidos definem perfeitamente o futebol brasileiro, da folha seca de Didi ao lance desconcertante de Ronaldinho Gaúcho, ou da bicicleta de Leônidas às pedaladas de Robinho, passando pelo deus Pelé. É o gosto pela curva, pelo floreio, pelo efeito, pela voluta, pela estetização extrema de cada jogada, pela surpresa. O povo brasileiro reinventou o futebol com a inteligência corporal específica de sua formação etnocultural. Na base, o samba e a capoeira. O ritmo e a malandragem. Não é por acaso que usamos uma mesma palavra – e de origem africana: ginga – para falar de sinuosos movimentos corporais de sambistas, capoeiristas e jogadores. E esta recriação se deu em horizonte barroco. É por isso que, acompanhando alguns estudiosos, chego a falar, sinteticamente, de uma escola barroco-mestiça de futebol.

P: Que marcas a escravidão, e também o movimento abolicionista que a enfrentou, deixam, ainda hoje, na cultura negra brasileira? Em que medida esses não são apenas eventos do passado, mas marcas que ainda hoje se disseminam, com força, na vida brasileira? Como se comportam, hoje, nossos movimentos negros em relação a esse passado que se perpetua no presente?

R: Raramente nos lembramos de que durante séculos, no Brasil, ninguém foi contra a escravidão em si. Os tupinambás praticavam a escravidão, assim como os portugueses e os africanos. Quando um determinado grupo negro se rebelava contra a sua situação, travava uma luta específica: queria se libertar do seu cativeiro, mas não hesitaria em escravizar outros grupos. Havia escravos em Palmares. E os negros malês, que se sublevaram em 1835, pretendiam escravizar os mulatos. Ou seja: do século 16 ao século 19, fomos todos escravistas. Foi com o movimento abolicionista que, pela primeira vez em nossa história, a escravidão como sistema foi colocada em questão. E, também pela primeira vez, formou-se uma ampla aliança de classes e cores, em função do combate ao sistema. Negros – livres e escravos – participaram ativamente do processo. Nesse sentido, o 13 de Maio (ainda hoje, apesar de tudo, a nossa maior revolução social) foi, também, uma vitória negromestiça. E penso que nossos atuais movimentos negros não deveriam estigmatizar a data, desprezando a longa e dura luta vitoriosa de seus antepassados. O problema é que as nossas elites impediram a realização completa do projeto abolicionista, que visava à integração final do negro na sociedade brasileira. Não promoveram as reformas moral, educacional e agrária que eram reivindicadas pelas lideranças abolicionistas. Nabuco dizia que acabar com a escravidão não bastava: era preciso liquidar todos os vestígios do regime. E isto não foi feito. É por isso que a maioria dos negromestiços vive ainda no subsolo da sociedade brasileira. E que ainda estamos lutando para completar a obra apenas iniciada pela Abolição. O que não acredito, ao contrário dos movimentos negros, é que a luta tenha de se dar, necessariamente, por linhas étnicas rígidas. Pela adoção do modelo racial norte-americano. Temos de pensar o Brasil por nossa própria conta e risco – ou os equívocos continuarão se sucedendo vertiginosamente. É mais difícil, mas, certamente, menos enganoso e falsificador.

P: Você trata da existência de uma "nova história oficial brasileira", que se distingue da velha história oficial, que era tramada na perspectiva dos colonizadores. Você chega a dizer que ela é "uma espécie de contra-história brasileira". Como ela se define? Em que medida ela construiu novos dogmatismos e novos clichês? Que aspectos e contradições de nossa história essa "contra-história", formulada nos anos 70, tratou, ela também, de dissimular e esquecer? Em que medida ela apenas substituiu mitos antigos por mitos novos?

R: Existe a velha história oficial do Brasil, que se institucionalizou a partir da obra de Varnhagen e da criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. E existe a nova história oficial do Brasil, que nasceu na década de 1970, invertendo os sinais algébricos da "velha", e se institucionalizou mais recentemente, gravando-se nos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ministério da Educação, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Falo de "contra-história" porque ela pouco mais é do que uma inversão de sua antecessora. Se a "velha história" celebrava a colonização lusitana, a "nova história" celebra irrestritamente negros e índios, condenando o colonizador português ao fogo do inferno. De uma parte, ela é a história do índio eco-feliz e do negro gloriosamente empenhado na luta por sua liberdade. De outra, é a história do colonizador branco como um animal invariavelmente estuprador e assassino. De um maniqueísmo absoluto, reduz a história do Brasil, que é altamente complexa, a um filme de bandido e mocinho, idealizando os dominados e caricaturando os dominadores. Daí que passe bem ao largo de coisas como o caráter essencialmente agressivo e belicoso da cultura tupinambá ou do fato de que os nagôs vieram parar aqui porque foram vendidos aos brasileiros pelos reis do Daomé. Enfim, é uma história de povos-anjos e povos-demônios, que converte os nossos antepassados em fantasias a-históricas. E, assim, não faz mais do que substituir mitos antigos por mitos novos – ou mentiras surradas por mentiras recentes. Se quisermos de fato nos conhecer, temos de superar esse primarismo "rousseauniano", feito sob medida para debutantes mentais.


P: Contrariando a idéia dominante, você faz em seu livro uma aproximação estreita entre o Brasil e Cuba. O fio de ligação principal é a santería, a religião dos orixás, e, em particular, a figura de Exu. A maior parte dos brasileiros tende a ver Cuba como um país atrasado, parado no tempo, e imobilizado sob o peso de um regime de exceção. Que elos secretos, ainda assim, seriam esses que nos unem a Cuba?

R: O traço de união entre o Brasil e Cuba é a África. Em termos históricos, genéticos e culturais. Costumo dizer que Cuba foi uma Bahia tardia e, ao mesmo tempo, mais avançada. Mais tardia porque o apogeu da economia açucareira cubana aconteceu no século 19, quando os canaviais baianos se encaminhavam para a decadência final. Mais avançada porque o que se implantou lá foi um parque açucareiro moderno, efeito e causa da chamada "revolução agrícola" cubana. Nessa época, as populações negras do Brasil e de Cuba experimentaram uma mudança notável. Os bantos estavam desde o início em ambos os lugares. Mas a revolução agrícola em Cuba e o estabelecimento de nexos comerciais diretos entre o Brasil e o golfo do Benim, na África, trazem para os nossos países levas e mais levas de iorubanos – chamados "nagôs" no Brasil e "lucumís", em Cuba. E os iorubanos vão marcar profundamente e para sempre as duas regiões, irmanando-as. Isto é muito claro no campo da produção cultural. Uma antropologia das formas estéticas no Novo Mundo mostra com clareza a presença africana, sobretudo banto e nagô (ou lucumí), nas criações brasileiras e cubanas. Antes que "hacienda" de Fidel Castro, Cuba é, mais profundamente, terra de Iemanjá e Xangô. Como a Bahia.

P: Como você se sente e se vê no cenário cultural brasileiro de hoje? Quais são seus principais interlocutores e quais são os principais obstáculos que enfrenta? Quais são, a propósito, seus novos projetos de livros?

R: No campo específico da discussão das relações sócio-raciais no Brasil, hoje, minha sensação é de isolamento. De uma certa solidão política e intelectual. Por um lado, o que temos é a velha conversa de que não existe racismo no Brasil. Por outro, o que predomina é o racialismo político-acadêmico, a militância neonegra, lendo o Brasil com lentes norte-americanas. Ou seja: por um lado, o clichê insustentável; por outro, a alienação universitária e o capachismo ideológico. Nesse último caso, não se trata de combater "idéias fora do lugar", mas de lembrar que as concepções raciais norte-americanas não são conceitos, categorias universais, mas noções "nativas", indestacáveis da experiência histórica dos EUA, que procuram injetá-las em nosso meio através de suas instituições e financiamentos de pesquisas. Além disso, o poder se comporta com excessiva reverência diante do discurso racialista. E é ignorante, como Lula pedindo perdão no Senegal. Quem tem de pedir perdão aos povos africanos, pela escravidão, são as elites africanas, que participaram ativa e lucrativamente do tráfico de escravos. Como se não bastasse, há uma certa covardia dos intelectuais, que temem contrariar os movimentos negros e serem classificados como racistas. O clima, enfim, é de inibição do debate. Fico, então, com as exceções. Com a paixão da troca clara e honesta de idéias. E, portanto, com poucos interlocutores, a exemplo de Peter Fry, Eduardo Giannetti, João Santana e Caetano Veloso. Quanto a novos livros, não sei. Tenho escrito muito sobre a cidade no Brasil. Mas, no momento, quero que venha à luz este novo, "A Utopia Brasileira e os ovimentos Negros".